Como avaliar o trabalho de um treinador?

A demissão de Eduardo Batista do comando técnico do Palmeiras essa semana re-acendeu um velho debate entre jornalistas, comentaristas e palpiteiros das redes sociais: Qual o tempo ideal para avaliar o trabalho de um treinador? É justo uma demissão com poucos dias ou meses de trabalho? Estatísticas mostram que a maioria dos times que trocam de treinadores durante uma temporada geralmente não ganham títulos e por várias vezes lutam na parte debaixo da tabela. Mas aí entra o dilema de Tostines: Não ganham por que trocam de técnico ou trocam de técnico por que não ganham?

Independente do dilema, vivemos num mundo em que todas as análise, por mais complexas que sejam, devem ser resolvidas em 140 caracteres. O treinador serve ou não serve? É bom ou ruim? Ganhou ou perdeu? E pouco se fala sobre efetivamente como a análise deve ser feita. Particularmente, acho que para avaliar o trabalho de um treinador precisamos analisar três coisas: Condições, expectativa e perspectiva.

O primeiro ponto é entender quais as condições do clube e do elenco quando da sua chegada. O elenco era bom ou não, havia espaço financeiro e tempo para contratações, qual a condição psicológica do elenco que estava a sua disposição, qual a influência dos diretores do clube em seu trabalho, as condições de treinamento e etc.
Entendendo as condições, temos que compreender as expectativas geradas sobre seu trabalho: Se vai trabalhar mais com jovens vindo da base, é normal esperarmos uma equipe que oscila mais, que talvez no começo não renda tanto em jogos grandes, como clássicos regionais, que demore um pouco para engrenar e assimilar a filosofia de trabalho e de jogo que o treinador propõe. Agora se o elenco já está montado e ainda houve boas contratações, é esperado uma assimilação mais rápida e um bom desempenho em campo mais cedo, menos oscilante.

E aí vem a questão da perspectiva. Com o que o time conseguiu mostrar até agora, há esperanças de conquistas? Sendo a expectativa mais modesta, há a perspectiva de melhora do desempenho? Os jovens da base irão conseguir evoluir e ganhar espaço nas mãos desse treinador? O elenco que já é bom, vai ter um bom desempenho nos jogos grandes e decisivos?

Logicamente que há um tempo para avaliarmos essa trinca, mas não necessariamente precisa ser de uma temporada inteira. Em alguns momentos, dá para analisar esses três contextos em alguns meses de trabalho. Óbvio que se um clube chega a conclusão em vários momentos de uma temporada de que o melhor é a troca de técnico tem um erro anterior que é na avaliação do treinador em si e das condições entregues e expectativas geradas sobre ele. Mas, acompanhando os treinos e vendo o desempenho e evolução da equipe nos jogos, é possível ter uma perspectiva de onde o trabalho vai. E aí se definir pela manutenção ou alteração do treinador.

Note que em nenhum momento coloquei resultado como peça chave das análises. Futebol, diferente de esportes como basquete, vôlei, tênis entre outros, uma equipe, muitas vezes, não constrói o resultado somente por desempenho. Uma expulsão, uma falha casual de um atleta ou arbitragem podem mudar os rumos da partida, ao passo que nos esportes que citei, pela maneira como o jogo transcorre, esses fatores são atenuados. Lógico também que resultado é importante, mas para avaliação de um trabalho de um treinador de futebol é mais factível observar o desempenho somado aos três pilares comentados que simplesmente o placar dos jogos. Entendendo tudo isso, seremos capazes de entender muitas vezes se as demissões de um treinador s]ao justas ou não e se as dificuldades do clube são mais na comissão técnica ou em outros setores.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: