Saudosismo FC – O mito Jacózinho

O futebol brasileiro sempre teve seus personagens folclóricos, que entram para a história por diversas questões que nem sempre tem a ver com a qualidade praticada nos gramados. Com as redes sociais bombando nos dias atuais, Flávio Caça-Rato, o CR7 tupiniquim, se encaixa nesse perfil. Mas, como a coluna se chamada Saudosismo FC, vamos falar de um jogador mais antigo, mas que contou com simpatia do público bem semelhante. Trata-se de Jacozinho, ponta-esquerda do CSA, de Alagoas nos anos 80. E para entender sua mitologia, precisaremos mergulhar no contexto histórico do futebol brasileiro dos anos 80.

Sem muitas dúvidas em minha cabeça, o maior jogador brasileiro dessa década certamente foi o galinho de quintino camisa 10 da Gávea, o querido Zico. Campeão brasileiro em 4 oportunidades (ou três, dependendo de como você avalia a competição de 1987), da Libertadores e Mundial em 1981 e camisa 10 do Brasil em 1982, uma das maiores seleções da história das Copas do Mundo, Zico rumou a Itália em 1983 para jogar na Udinese. Por alguns problemas com a área fiscal italiana, Zico voltaria para o Brasil e para o Flamengo em 1985. No seu retorno, uma grande festa armada no Maracanã, para um amistoso entre Flamengo e uma seleção do mundo.

Nesse período, no estado do Alagoas, surgia um ponta-esquerda que entrava no cenário nacional com bonitos gols que iam para a tela da Globo no dominical Fantástico. Jacozinho ganhava fama muito ajudado pelo reporter da Rede Globo local, Márcio Canuto. Entre as brincadeiras do repórter, era comum o pedido de convocação do jogador alagoano para a seleção brasileira. E, mesmo sem as redes sociais na época, o coro foi ganhando o território nacional e Jacozinho passou a ser conhecido no Brasil inteiro. Tanto que na seleção do mundo que enfrentaria o Flamengo no retorno de Zico, com muita influência da rede de televisão é verdade, Jacozinho estava no elenco ao lado de jogadores do quilate de Maradona, Karl-Heinz Rummenigge, Toninho Cerezo e Falcão.

O Maracanã recebeu quase 40 mil torcedores para esse amistoso “jogo festivo”. Além de Zico, o Flamengo tinha em seu elenco o lateral Leandro, Andrade e Adílio no meio campo, o ponta direita Tita entre outros jogadores que marcaram época na Gávea. Zico marcou de falta, uma de suas grandes marcas quando jogador. Mas, no segundo tempo, a torcida pedia para a entrada dele, Jacozinho. O alagoano entrou aos 20 e tantos da etapa complementar. Se já não bastasse isso, recebeu lançamento de Maradona, invadiu a área, fintou o goleiro Cantarelle e fez o único gol do time “Amigos de Zico”, que perdeu por 3 x 1. Mas entrou para história do futebol brasileiro. Márcio Canuto, que já tinha o estilo de reportagem que vemos hoje na TV, cobrava insistentemente sua presença na seleção. Mas, Jacozinho entraria para a história do futebol mais pelo lado folclórico mesmo. Afinal, quantos jogadores podem dizer que fizeram gol no time de Zico recebendo passe de Maradona? Certamente bem poucos.

A fama de Jacózinho foi tão grande que ele teve homenagens de diversas personalidades do Brasil, como o então governador de Alagoas Fernando Collor de Melo (personalidade que, para dizer a verdade, nunca é muito boa de comentar, mas, infelizmente, faz parte da história do Brasil. E continua fazendo, o que é pior). Mas Jacózinho não teve chances nos grandes do Brasil. Fez testes no Santos em 1983, como conta o próprio, mas não ficou. Rodou também por Sergipe, Vasco (SE), Jequié (BA), Galícia (BA), Lêonico (BA), Corinthians de Presidente Prudente (SP) e Santa Cruz. Virou mito, lenda do futebol nacional. E tem seu espaço no museu do Estádio Rei Pelé, em Maceió. O folclore sempre fez parte do futebol brasileiro. E com saudosismo, lembraremos de muitos jogadores que fizeram essas histórias gostosas de se lembrar do nosso querido esporte bretão.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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