Opinião – Temos que discutir a homofobia no futebol

Estava lendo matérias sobre a chegada de Richarlyson ao Guarani, para a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro e acabei sendo “convidado” a escrever esta coluna. Aceitei de pronto o convite, porque esse é um tema que deveria ser muito melhor apresentado pela mídia. Como o HTE abre o espaço para expressar a minha opinião, essa coluna está liberada para falar sobre a homossexualidade no futebol, e a forma como ele é tratado pela imprensa esportiva.

Vamos aos fatos: Richarlyson, 34 anos, jogador que já atuou pela seleção brasileira, sofre um preconceito absurdo por (supostamente, mas isso não tem a mínima importância) ser gay. Até mesmo na imprensa esportiva, o seu nome é motivo de piadas entre alguns comentaristas devido a sua orientação sexual. Nesta terça-feira, 9, o volante foi anunciado pelo Guarani como reforço do Bugre para a Série B do Campeonato Brasileiro. O jogador foi um pedido do treinador Vadão, que gostaria de acrescentar experiência ao seu elenco, num clube que acabou de subir de divisão.

O fato é que as negociações para a vinda do atleta foram feitas sob sigilo. Alguns diretores do clube eram contra a contratação. Após o anúncio, vários torcedores vociferaram contra a chegada do jogador. O motivo: a suposta orientação como gay, do atleta. Sim, esse foi o principal motivo dos protestos, que chegou ao ápice de se atirarem 5 bombas em direção ao estádio Brinco de Ouro da Princesa. Ninguém saiu ferido dessa insanidade, pelo menos.

Voltando ao início do texto: a cobertura jornalística do fato. Quase todos os sites em que pesquisei a notícia não mencionam a questão central do ocorrido: a homossexualidade do jogador ser o fator principal da rejeição. De que se colocassem o nome de outro atleta e a mesma notícia, aparentemente o motivo dos protestos seria pelo aspecto técnico, coisa que todos sabemos que não é. Ou vocês já viram alguém soltar bomba em sede de clube porque o dirigente contratou um péssimo jogador? Com certeza estaríamos emulando conflitos do Oriente Médio se a moda pegasse.

Qual o problema em mencionar a palavra gay no texto? Qual o problema de se discutir, de forma adulta (e não como se fôssemos todos uns pré-adolescentes bobos), a homossexualidade no meio do futebol? Porque se você acha que isso não existe no meio, vou te contar um segredo: você está muito enganado. Jogadores que chegaram a disputar uma Copa do Mundo, como o alemão Thomas Hitzlsperger e o americano Robbie Rodgers assumiram sua homossexualidade. A nota triste fica por conta dos dois terem se sentido confortáveis para falar sobre o tema após terem abandonado o esporte. E isso fala muito do que o mundo do futebol (e o mundo em geral) ainda precisa evoluir contra esse tema.

Num tempo onde a própria mídia se diz engajada em campanhas contra o racismo, a violência contra a mulher e o preconceito com a comunidade LGBT, é triste notar que o fato ocorrido com o novo volante do Guarani tenha passado quase desapercebido pelo noticiário. E quando noticiado, é feito com todo o cuidado para que não se mencione diretamente a questão da homofobia.

A verdade é que estamos perdendo mais uma oportunidade para discutirmos o assunto de forma séria, correta e sem as amarras ridículas. A homossexualidade está presente na sociedade, inclusive no futebol.  Utilizar o esporte como um catalisador para esclarecer e conscientizar as pessoas deveria ser a coisa certa a se fazer. É por acreditar nisso que eu escrevo essa coluna. Se ela conseguir tocar pelo menos uma pessoa para refletir sobre esse assunto, cada linha dessa já terá valido a pena.

* ESSA COLUNA É DE OPINIÃO EXCLUSIVA DO AUTOR E NÃO REFLETE, NECESSARIAMENTE, A OPINIÃO DO SITE SOBRE O TEMA.

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