Alemanha 0 x 2 Brasil – A saudade virou debutante

30 de junho de 2002. Estádio de Yokohama, Japão. Brasil e Alemanha, dois dos maiores campeões mundiais de futebol, fariam uma final inédita na história dos mundiais. Numa Copa do Mundo inédita (a primeira fora do eixo América-Europa), com horários bem alternativos (o apito inicial foi às 8h30 da manhã). Um domingo chuvoso em Maceió (cidade onde moro), o que gerou inclusive quedas de energia durante o jogo. No meu caso, tive a sorte de não ter sido vítima dessa falta de energia.

Com 16 anos, eu já tinha passado a experiência lúcida de 2 Copas: a alegria de 94, com uma conquista que veio depois de 24 anos de frustrações; e 98, com o gosto amargo da final perdida para os franceses em um dia que nada deu certo para o Brasil. Indo para a minha terceira Copa, eu já tinha formado uma superstição: ou assistiria todos os jogos no mesmo lugar, ou assistiria os jogos em lugares diferentes. E sigo com ela até hoje (infelizmente nas 3 últimas Copas, por motivos distintos, quebrei a corrente e o resultado vocês sabem…).

Festa brasileira no Japão!

2002 foi o último mundial em que eu assisti alguns jogos com meu pai. Hoje ele mora em Salvador e não assistimos mais jogos juntos, mas sempre conversamos sobre futebol. Temos personalidades parecidas, não somos muito de conversar de forma efusiva, então o futebol sempre abre espaço pra o nosso diálogo sobre outras coisas também. Como os seus horários de trabalho nem sempre liberavam pros jogos, algumas vezes eu assisti na casa de amigos. SEMPRE em lugares diferentes.

Curiosamente, assisti a partida no lugar mais óbvio possível, onde ainda não havia assistido nenhum jogo: a sala de casa. Acordei as 6 e meia, ansioso para que o jogo começasse logo. Minha mãe e irmãs foram assistir a partida num bar, mas preferi ficar em casa, sozinho, acompanhando a partida. Estava tenso demais para compartilhar aquele sentimento com outras pessoas. Por mais que não tenha apresentado um grande futebol na campanha, a Alemanha era a Alemanha. Tinha em Kahn um grandíssimo goleiro, o principal responsável pela chegada da equipe até a final junto com Michael Ballack, que suspenso, viu a partida do banco de reservas (à época o jogador suspenso poderia ficar no banco).

Começa o jogo. Nervosismo. Tensão. Um dos jogos mais truncados que eu já assisti. O primeiro tempo foi todo brasileiro, com 4 boas oportunidades para marcar, sendo duas com Ronaldo e duas com Kleberson. Uma delas, aos 44, explodiu no travessão. Rivaldo estava um pouco apagado, Ronaldo errava coisas simples e Ronaldinho parecia sentir um pouco da pressão do jogo. Os melhores jogadores do Brasil na partida eram Kleberson e Cafú. Ao final do primeiro tempo, o nervosismo só aumentava. No meu caso, começava a me arrepender de não ter ninguém para dividir a angústia. A solução foi cornetar em voz alta a transmissão da Globo, com Galvão Bueno no comando (brilhante, apesar de muitos não gostarem).

Vem o segundo tempo. Vem uma Alemanha mais corajosa, ousada e que chegou a pressionar o Brasil. Bola na trave logo aos 3 minutos, num chutaço de Neuville numa falta de longe. Será que o Brasil vai repetir 98? Sigo acompanhando. Foram 20 minutos de agonia, até que o minuto 21 veio o alívio. Um gol que sintetizou toda a caminhada de Ronaldo até a Copa do Mundo. Tentativa de jogada individual, ele escorrega, cai, se levanta, recupera a bola e passa para Rivaldo. Rivaldo chuta, Kahn falha e Ronaldo confere para o fundo do gol. Explosão sozinho em casa. Explosão nas ruas. Nunca um grito de gol foi tão unísssono nos meus 31 anos de vida. Logo você Kahn, que havia sido escolhido melhor da Copa, entregando a rapadura? Soou como justiça dos deuses do futebol.

Kahn falha, Ronaldo marca.

 

A partir daí, o Brasil se retraiu e buscou espaços para contra atacar, enquanto a Alemanha se mandou toda para frente. O experiente Bierhoff entrou em campo, e as bolas aéreas passaram a ser praxe na área brasileira. Roque Júnior e Lúcio faziam uma partida impecável nesse quesito, cortando todas. Sim amigo, Roque Júnior, ele mesmo. Minuto 33. Kléberson arranca pela direita, faz grande jogada e rola para a entrada da área. Rivaldo, num lance de gênio, deixa a bola passar entre as pernas, deixando Ronaldo livre para marcar o segundo, num chute colocado que raspou o poste direito de Kahn, se tornando o artilheiro isolado do mundial, com 8 gols.

Marcos fez pelo menos duas defesas chaves na partida

A partir daí, a Alemanha foi toda a frente tentando o milagre, mas as atuações dos 3 zagueiros brasileiros (Além dos 2 já citados, Edmílson) foram exemplares, além de Marcos fazendo defesas cruciais em momentos chaves. Ainda deu tempo de Denílson entrar e aprontar um salseiro contra a defesa alemã. Não deu tempo para o jovem Kaká entrar numa final de Copa do Mundo. Pierluigi Collina apitou pela última vez na sua brilhante carreira de árbitro. 7 jogos, 7 vitórias. O Brasil era pentacampeão mundial de futebol.

Vibrei sozinho em casa. Depois do jogo, encontrei com amigos e fomos tomar umas boas cervejas para comemorar o feito. Lembro de me sentir privilegiado em ver 2 títulos mundiais em tão pouco tempo. Haviam gerações que esperaram 24 anos entre 70 e 94. Eu, com 16 de vida, já havia visto o Brasil em 3 finais consecutivas e 2 títulos. A cidade parou, o Brasil parou. A taça do mundo voltou a ser nossa.

Por fim, gostaria de agradecer aos 23 jogadores, comissão técnica e equipes de imprensa que participaram daquela competição. Personagens como Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho, Lúcio, Marcos, Cafú, Roberto Carlos, Felipão… eles estarão sempre na minha memória. Alguns amigos brincam que eu torço demais para a Seleção Brasileira, mais do que a média geral. Provavelmente eles estão certos. As minhas primeiras memórias de futebol me remetem ao Brasil sendo eliminado pela Argentina em 90, ainda com 4 anos. As primeiras memórias mais claras de futebol me remetem ao título de 94. Deduzo que se hoje eu gosto tanto assim do esporte, a Seleção Brasileira é muito responsável por isso. Ainda que hoje eu tenha muito mais consciência do que é a CBF e quem são os seus dirigentes, não tem como abandonar a equipe Canarinha.

30 de Junho de 2002 – Copa do Mundo Final – Estadio Internacional – Brasil 2 x 0 Alemanha
Em pé: Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Gilberto Silva, Marcos, Kaká, Vampeta, Ânderson Polga, Dida, Rogério Ceni e Belletti; Agachados: Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Kléberson, Rivaldo, Cafu, Júnior, Ricardinho, Luizão, Edilson, Denilson e Juninho Paulista. Técnico: Luis Felipe Scolari

Já se passaram 15 anos, mas as lembranças daquela manhã chuvosa do dia 30 de junho de 2002 continuam presentes. Curiosamente, enquanto escrevo o texto, cai uma chuva bem similar aquela de 15 anos atrás. Parece que até a chuva está com saudades daquele dia. Hoje, a saudade é debutante. Parabéns aos pentacampeões!

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