CLUBE DA FÉ #103 – Objetivos e Fundamentos

Há alguns anos adquiri o hábito da leitura de livros esportivos. Sempre foi mais fácil para mim livros de histórias, administração, filosofia e não-ficção que romances e livros de ficção. Há uma série de livros trazida ao Brasil pela editora Sextante denominada “Na vida como no esporte”, com livros de grandes nomes do esporte americano traduzidos para o português e comentados pelo ex-treinador da seleção masculina de voleibol brasileiro Bernardinho. Entre eles, está o livro do maior jogador de basquete de todos os tempos, Michael Jordan, com o título traduzido “Nunca deixe de tentar”.

Várias lições de liderança, trabalho e evolução estão contidas nessa obra

Nesse livro, entre as várias lições de liderança trazidas por Jordan e muito bem comentadas por Bernardinho, duas serviriam para o São Paulo e nosso treinador Rogério Ceni. A primeira seria com relação aos objetivos e metas da equipe. Jordan comenta que, para se chegar à excelência a única forma é com um passo de cada vez. Ele tinha como objetivo ser campeão e o melhor jogador da NBA, mas não podia fazer isso de uma hora para outra. Precisava ser primeiro o melhor jogador universitário, depois melhor defensor, depois o líder da equipe, e assim por diante, até conquistar o seu objetivo maior.

O que isso tem a ver com o São Paulo? Afinal, Jordan foi jogador de basquete, não futebol, certo? Tem tudo a ver. Primeiro porque as lições transcendem as modalidades esportivas. Depois porque me parece que Ceni, apesar do planejamento errático da direção para composição do elenco, queima etapas na montagem de uma equipe. Ele tem uma boa ideia de jogo e de formação, apoiada nos estudos que fez fora. Hoje, muito se fala em equipes “anfíbias”, que mudam a forma de jogar de acordo com o adversário e situação de jogo. Mas para se chegar nesse nível, precisa-se primeiro criar uma forma de jogo, para depois ir para as variações. Não se pula do nada, como o São Paulo terminou o ano passado, para o tudo como Rogério pretende fazer, alterando para todo confronto a escalação, desenho tático e forma de jogo. A evolução da equipe é uma escada que se alcança de degrau em degrau, não pulando direto ao topo. Óbvio que precisa-se de correções de rotas, removendo peças que não estão produzindo, mas as alterações quase sempre são de três ou quatro jogadores por partida, o que representa praticamente 30% do time.

O segundo ponto do livro que comentei acima é sobre fundamentos. Michael dizia que não adiantava treinar o dia inteiro toda semana se os fundamentos estivessem errados. Que se treinasse 30 horas um jeito incorreto de se fazer o arremesso, o máximo que conseguiria seria ter aperfeiçoado o jeito errado de se arremessar uma bola. E que, quando as coisas não dão certo, não adianta inventar. É hora de sentar e ver se os fundamentos estão corretos.

Nos últimos jogos, principalmente contra o Atlético-PR e Fluminense, vimos uma equipe que até conseguiu ficar boa parte do tempo no ataque, embora a defesa, por mais que tenha tomado menos gols que no início da temporada, tenha também seus momentos de “Deus nos acuda”. Porém, enquanto no ataque, vimos também a dificuldade dos jogadores no passe final, nos cruzamentos e, principalmente, nas finalizações. O São Paulo, de acordo com dados do Footstas, é o terceiro pior em finalizações corretas sobre o total de finalizações nesse Brasileirão. Isso mostra como a quantidade de chances criadas, dado que o treinador sempre traz a tona nas coletivas pós-jogo, são enganosos. Pois, para o número ser tão alto, mostra que temos dificuldade na criação final da jogada, pouco antes da finalização. Nos cruzamentos, quando chegam na cabeça dos atacantes, raramente eles estão equilibrados e de frente para o gol. Na entrada da área, poucas vezes é feito um passe para que um jogador esteja sem marcação para finalizar a gol.

São coisas essenciais para a evolução da equipe. Claro que as reformulação constante do elenco desde o início da temporada como a que estamos vendo atrapalha e muito o crescimento do time. Mas também as ideias da comissão técnica quanto aos objetivos e ao trabalho de fundamentos parecem erráticos. Agora teremos uma semana de trabalho para dois jogos extremamente complicados fora de casa. Vamos ver se conseguimos retomar o trabalho dos fundamentos e evoluir, passo a passo, como equipe. Só assim o São Paulo sairá do buraco em que se encontra para vislumbrar um futuro um pouco melhor.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: