Mercenário ou profissional?

A contratação do treinador Guto Ferreira pelo Internacional acendeu um velho debate na redação do HTE Sports. Teria sido o então treinador do Bahia “mercenário” ou “hipócrita” ao deixar o clube do nordeste, em meio a um trabalho, e rumar para o Rio Grande do Sul? Ou seria uma conduta até certo ponto profissional e de mercado, visando uma melhor projeção da carreira em um time e centro de maior impacto no cenário nacional? Assim como na redação, começo esse texto já com minha opinião sobre o tema: Na era do futebol profissional, como se exige cada vez mais, tanto na administração dos clubes como nas relações entre funcionários (treinadores e jogadores) e patrões (dirigentes), o termo “mercenário” não cabe mais no vocabulário do esporte.

Entendo a revolta e os argumentos, principalmente dos meus colegas de redação do nordeste, nem todos eles torcedores ou simpatizantes do Bahia, mas praticamente 100% tem a visão, ou com bons motivos para isso, que o Nordeste acaba parecendo para nós, dos principais centros do futebol (e coloco São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul nesse grupo) acabam vendo o nordeste como “patinho feio” ou simplesmente como “fornecedor de matéria prima” para nossos clubes. Que consideramos que quando precisamos, basta “ir lá e pegar”, já que nossos clubes tem maiores patrocínios, maiores receitas e etc. Não tiro de maneira nenhuma a razão deles porque, em regras gerais, o sentimento dos clubes desses quatro centros é basicamente esse mesmo.

Mas, como falei no primeiro parágrafo, vivemos a era do futebol profissional. E a relação profissional tem o aspecto mercadológico como norteador em muitas decisões dos profissionais. Vou dar um exemplo utilizando a minha carreira e profissão: Sou desenvolvedor de sistemas e trabalho em uma empresa do ramo de telemarketing e call center. Pelos rankings, minha empresa está sempre entre o 8º e 13º lugar em grandeza de faturamento e quantidade de colaboradores contratados. Chegamos a estar e 5º em determinado ano. Minha profissão não é exclusiva do mercado, mas para efeito ditático, vamos imaginar que sim, assim como são a de jogador e treinador de futebol (não podem estar em outro mercado que não o futebol). Imaginemos agora que uma empresa do Top 3 do meu mercado tivesse conhecimento do meu trabalho na empresa que estou hoje e me fizesse uma oferta. Ora, no mínimo, eu como profissional, analisaria a oferta, não só em termos financeiros, mas também em ambiente de trabalho, distância do emprego para minha residência, oportunidades de crescimento entre outros fatores. Poderia aceitar ou recusar. E, aceitando, profissionalmente comunicaria minha empresa atual e cumpriria minhas obrigações legais do ato de minha saída, como aviso prévio, por exemplo.

Essa mesma situação se espelha na decisão de Guto Ferreira ou qualquer outro treinador ou jogador. Qualquer equipe tem o direito de fazer uma proposta e qualquer profissional tem o direito de aceitar ou recusar a mesma por qualquer motivo que seja. Sair do Bahia para ir para o Internacional e tentar integrar o grupo de treinadores de times grandes, que embora tenha procurado se renovar nos últimos 2 anos é geralemente bem restrito a alguns nomes de sempre, é uma decisão plenamente justificável e entendível do ponto de vista de um esporte com relações profissioais entre patrão (clubes) e empregados (jogadores e treinadores).

Ah, mas depois que os treinadores são demitidos todos eles ficam reclamando de tempo de trabalho, queima de projeto. Isso não é hipocrisia? De fato tem algo no minimo de vitimismo nesse tipo de comentário. Comentei alguns textos atrás sobre o tempo de avaliação para trabalho dos treinadores (Leia aqui) e nesse comentário coloquei que muitas vezes, em três ou quatro meses, dá para se ter noção também de se o trabalho renderá frutos ou não. E, sendo assim, o clube também tem o direito de não contar mais com o profissional, e contratar outro que julgue melhor para o futuro da equipe. Cumprindo as obrigações parte a parte, como multas rescisórias, faz parte da vida a troca de profissionais nas empresas, e fará parte na vida dos clubes. Nós que temos que parar com esses discursos prontos e elevar o debate sobre esses temas. Deixar o vitimismo de lado e analisar os motivos das decisões tomadas de parte a parte.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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