A nossa relação com o Cartola FC passou dos limites?

Fenômeno. O mesmo apelido do grande Ronaldo pode ser usado para descrever o sucesso que é o Fantasy Game Cartola FC. Criado em 2005 pela Globo.com, o jogo hoje conta com mais de 4 milhões de pessoas cadastradas. A cada rodada do Brasileirão temos recordes de times escalados. A divulgação dos meios de comunicação aumentou. Antes, era ao mais restrito da TV fechada. Hoje, qualquer programa da Rede Globo e do SporTV tem um espacinho para falar dos destaques do Cartola. Até mesmo durante os jogos temos placas estáticas nos estádios com o Fantasy.

O Cartola FC trouxe algumas novidades em relação ao modo como o brasileiro acompanha os jogos. Agora não basta apenas saber quem fez o gol e qual time venceu. Queremos saber quem deu as assistências, quem foi o maior roubador de bolas, entre outros dados. Não podemos negar que o Fantasy Game despertou nossa atenção para as estatísticas.

Porém, também nos revelou alguns pontos muito negativos. Torcedores deixando até mesmo de torcer para que seu time vença por conta de uma escalação no jogo, comemorando gol de rivais, cobrando excessivamente jogadores pois “eles ferraram com seu time no Cartola”, chegando até mesmo ao ponto de fazer ameaças.

É aí que voltamos ao título do texto: a nossa relação com o Cartola passou dos limites? Talvez a resposta seja sim. Somos, de forma geral, muito competitivos. Ninguém entra em uma disputa para perder. E isso não é diferente com nossos times no Cartola FC. Queremos sempre superar marcas anteriores, pontuar mais que nossos amigos, vencer as ligas apostas. Mas até que ponto vale a pena se estressar por isso?

E mais, até que ponto podemos nos comportar de maneira desumana somente por causa de um Fantasy Game? O caso mais recente foi em decorrência do adiamento da partida entre Ponte Preta e Fluminense. O jogo não ocorreu pois o filho mais novo do treinador Abel Braga, do Flu, morreu. Com isso, a CBF optou por colocar a partida em data posterior. Como o adiamento aconteceu após o mercado do Fantasy fechar, os cartoleiros pediram para ter a oportunidade de trocar os jogadores da partida que haviam sido escalados. Isso não correu e gerou revoltas, além de comentários muito tristes.

Fica o questionamento: os sentimentos de um pai que acabou de perder um filho são menos importantes que a sua liga do Cartola? Que a escalação do seu time? E se você fez parte do grupo de pessoas que ficou chateada pela anulação do jogo e destilou comentários extremamente lamentáveis sobre o ocorrido, que tal dar uma olhada no regulamento do Fantasy Game?

Isso significa que todos nós concordamos que caso alguma partida venha a ser adiada, os pontos não serão válidos. Você, eu e todos os que jogam Cartola não nos importamos em clicar no “Eu aceito todos os termos” na hora de fazer o cadastro. Regulamentos, leis e regras à parte, basta ter um pouco de humanidade para entender o caso.

JOGADORES E O CARTOLA

A relação dos atletas com o Cartola FC é bem mista. Alguns são fãs ferrenhos do Fantasy Game, tendo times e ligas pessoais. Muitos até mesmo gravam vídeos e pedem que os torcedores os escalem, prometendo grandes pontuações. Já outros não querem nem saber do jogo e de quem o joga. Muitos já demonstraram irritação e já mandaram mensagens, algumas até com xingamentos.

Rafael Sóbis, em 2016, deixou um recado bem direto para os cartoleiros

São muitos os casos de jogadores falando negativamente sobre o Cartola em suas redes sociais. A maioria desses comentários são respostas a torcedores que ficam cobrando boas pontuações (até mesmo quando jogam bem, mas pontuam mal, são cobrados).

Para concluir, quero deixar claro que gosto bastante do Cartola e sou, inclusive, o responsável por comandar o HTE Sports FC, time que é divulgado sempre nas postagens da Seleção HTE aqui em nosso site. Já me irritei muitas vezes, já prometi desistir, já quis ver certos jogadores indo embora. Mas, gente, é tudo um jogo. Por mais que a gente queira vencer, queira pontuar bem, existem limites. E, infelizmente, a nossa relação com o Cartola já está mais do que extrapolando esses limites.

Heider Mota

Baiano, 21 anos, estudante de jornalismo e amante dos esportes.

Twitter: @heiderzito

%d blogueiros gostam disto: