A centralização do futebol brasileiro através das cotas de televisão

O mapa do futebol brasileiro nas duas principais divisões é concentrado nas regiões sudeste e sul. O norte, por exemplo, conta com apenas um representante entre as Séries A e B do Campeonato Brasileiro.

Por Bruno Levy, César Oliveira e Smack Neto

Quem acompanha as duas principais divisões do futebol brasileiro, sabe que boa parte dos clubes que atuam nas principais ligas nacionais são das regiões sudeste e sul. Se formos analisar quais os clubes tem a maior relevância e poderio financeiro, as diferenças ainda são mais gritantes. Mas qual o real cenário financeiro do futebol brasileiro atualmente? Como ele se divide?

Atualmente, 40 equipes fazem parte das duas divisões nacionais (série A e Série B), sendo 20 em casa. Somadas ambas as competições, a região norte possui apenas um representante, o Paysandu, enquanto o sudeste possui 18. Isso dá um pouco da noção da disparidade entre o desenvolvimento do futebol nas regiões nacionais, trazendo até um questionamento sobre a real natureza da nacionalidade da competição. Como um campeonato brasileiro possui apenas um clube na região norte, uma das maiores em termos populacionais, entre os 40 participantes?

CONFIRA O MAPA INTERATIVO DOS 40 CLUBES BRASILEIROS DAS SÉRIES A e B

Essa questão pode ser respondida por alguns fatores: tamanho do interesse do público, a centralização midiática na região sudeste e sul e o maior desenvolvimento econômico das regiões onde os clubes, que hoje são considerados gigantes, estão localizados. Mas um dos fatores preponderantes, que de certa forma envolve os outros citados, com certeza são as cotas de transmissão televisiva das competições. Ainda que as cotas não tenham criado a disparidade, elas acabaram se tornando a maior responsável de ampliar a disparidade entre as equipes.

Flamengo e Corinthians são os clubes que mais recebem dinheiro de televisão: 170 milhões de Reais. Os clubes do Nordeste que disputam a Série A (Sport, Bahia e Vitória), recebem 35 milhões de Reais. Quase cinco vezes menos que os gigantes do Rio e São Paulo. Com um futebol cada vez mais organizado como um negócio, onde o dinheiro cada vez mais influencia diretamente na organização e no resultado em campo, a disparidade acaba sendo refletida em campo, com as equipes mais pobres se contentando apenas em ser coadjuvantes nas competições.

O Paysandu é o único clube do NOrte entre os 40 das Séries A e B.
(Thiago Gomes/Ag. Pará)

 

A construção midiática dos grandes clubes brasileiros

Temos de contextualizar do porque os clubes do sul e, principalmente, do sudeste se tornaram as grandes marcas nacionais que são hoje. Até os anos 60, o futebol era território exclusivo das rádios. A comunicação nacional era baseada justamente na radiodifusão, e o futebol era um dos eventos que as rádios acompanharam até então. As grandes rádios, como Globo, Tupi, Nacional, transmitiam os jogos de futebol de equipes paulistas e cariocas, inclusive para região norte e nordeste, o que acabou criando uma grande concentração de torcida por esses clubes dos dois estados, mesmo com o futebol no norte e nordeste começando a se desenvolver. Os torcedores híbridos, que torcem para um clube local do norte-nordeste e outro do sul-sudeste, é figura corriqueira até hoje.

O ciclo acaba sendo vicioso, porque quanto mais esses torcedores consomem o “produto” sul-sudeste, mais a mídia acaba investindo na cobertura desses clubes, o que acaba atraindo mais torcedores. Mídia acaba gerando renda, renda acaba tornando os clubes ricos ainda mais ricos, com a distância para os menos abastados aumentando cada vez mais. Mas como acabar com isso?

 

As perspectivas para uma representatividade das regiões no futebol brasileiro

Em 2019, alguns clubes terão contratos com o Esporte Interativo para a transmissão do Campeonato Brasileiro das Séries A e B. Os valores oferecidos pela concorrente da Globo, que é a atual detentora da exclusividade dos direitos de transmissão da competição, acaba melhorando o valor arrecadado por clubes como o Bahia, que enxerga no projeto do Esporte Interativo uma alternativa para diminuir a distância financeira.

Uma alternativa interessante, porém de difícil execução diante do modelo de gestão atual no futebol brasileiro, seria a modificação no sistema de distribuição de cotas de televisão do campeonato brasileiro. As grandes ligas da Europa, baseadas no exemplo da Inglaterra, já tomaram consciência da necessidade de diminuir a distância entre os piores e os melhores clubes. Uma redistribuição que conta com uma parcela significativa dos direitos sendo divididos de forma igualitária, com o restante sendo distribuído por posição no campeonato e audiência nos jogos, seria essencial para que as disparidades entre os clubes diminuíssem, e principalmente, que clubes das regiões norte e nordeste tivessem uma melhor condição de competir em pé de igualdade contra as potências da região sul e sudeste.

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