Bibiana Steinhaus representa muito mais do que a primeira árbitra a apitar na Bundesliga

Por: Lucas Tinôco (@lucastinocof)

Bibiana Steinhaus, alemã, 38 anos, policial, ex-jogadora e árbitra de futebol. Desde 2005 buscando um lugar entre grandes nomes de uma profissão em um esporte onde as mulheres precisam se provar ainda mais. Costumeiramente acompanhamos jogos das mais variadas ligas de futebol no mundo e raramente as vemos apitando algum jogo das divisões principais. Bibiana, com um currículo já grandioso, trabalhou em divisões inferiores da Alemanha e também em Copas do Mundo e Liga dos Campeões… Feminina.

Não dá pra dizer que a profissão (árbitra de futebol) é machista. Se perguntarem para os profissionais da área, provavelmente boa parte dirá que não vê problema. Ainda assim é um ramo não muito convidativo considerando a predominância de homens que ocupam estas posições. Para o fã de futebol, basta buscar matérias relacionadas a mulher no esporte para vermos comentários como “cada um no seu quadrado”, para não citar os mais arrogantes e ofensivos possíveis.

Ultimamente o número de mulheres cresceu no quadro de arbitragem, mas em sua ampla maioria nos papéis de bandeirinhas, considerado “secundário” em relação aos poderes que lhe cabem. Eis que neste 10 de setembro de 2017, Bibiana Steinhaus surge como primeira árbitra de futebol da história da Bundesliga, principal divisão alemã, e também dentre as principais ligas da Europa. Esta conquista representa vitórias de um país que aprendeu/aprende com seus erros e tem buscado ser o melhor em tudo.

Hoje a Alemanha é 11º país no Índice Global da Igualdade de Gênero, publicado pela última vez em 2015. O ranking é dominado pela Islândia, seguida de Noruega, Finlândia, Suécia (todos países nórdicos) e Irlanda. O país, que hoje tem uma mulher (Angela Merkel) no mais alto cargo político, considerada a mais poderosa do mundo e uma das líderes da União Européia, vê sua desigualdade cair principalmente na política. Em termos de Mercado de Trabalho, poucos países do mundo têm tantas mulheres como na Alemanha, ou seja, a participação delas na política e economia do país está muito acima da média mundial.

Outras conquistas das alemãs são relacionadas à maternidade (licença maternidade, licença parental e bolsa família/maternidade); ao aborto (em caso de abuso sexual, quando a vida da mulher corre risco ou por desejo da gestante, sendo que neste caso têm que passar por aconselhamento psicológico obrigatório); e, pasmem, em relação à língua, pois existe um combate na linguagem que busca uma neutralidade em detrimento de priorizar homens ou mulheres, ou seja, uma língua igualitária com os gêneros. Não é que tudo são flores… Lá também há muita desigualdade em vários setores, mas o progresso, de fato, precisa ser elogiado.

Voltando ao ranking citado acima, o Brasil ocupa a 85ª posição. No “país do futebol”, passaram-se 10 anos sem uma mulher apitando um jogo do campeonato nacional. A primeira e última tinha sido Silvia Regina de Oliveira, que em 2003 comandou Guarani x São Paulo pelo Brasileirão e que em 2005 fez sua última aparição no duelo entre Paysandu x Fortaleza. Há dois anos Deborah Cecília foi escalada com árbitra de Murici x Campinense, pela Série D, ou seja, bem distante do cenário da precursora Silvia. Deborah apita constantemente jogos da Copa do Nordeste.

O país que há 12 anos não tem uma árbitra na sua principal divisão fez o que a Alemanha busca fazer com sucesso 14 anos depois (Silvia em 2003 e Bibiana em 2017). Hoje para uma mulher apitar jogos de competições nacionais no Brasil, elas precisam passar pelos mesmos testes exigidos aos homens. Deborah superou, mas não teve a mesma felicidade de Regildênia de Holanda Moura, que em 2014 passou em todos os testes e mesmo assim não apitou nenhum jogo.

(Foto: Infoesporte)

Bibiana estreou muito bem, o Hertha Berlin empatou em 1 a 1 contra o Werder Bremen em um Olympiastadion que ofereceu descontos para as torcedoras que queriam assistir o duelo. A esperança é que daqui a 12 anos estejamos falando do sucesso que são as mulheres que apitam jogos da modalidade para qualquer gênero.

*Créditos da imagem destacada: Daily Telegraph

Lucas Tinoco

21 anos, baiano e aspirante a jornalista esportivo. Fanático por esportes em geral, principalmente futebol. Adepto das ligas europeias e do futebol alternativo. Líder do Editorial de Futebol Internacional do HTE Sports.

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