Brazuca FC – A final de Brasileiro mais improvável da história

(Foto: Reprodução / Coritiba FC)

A Série A do Brasileirão, desde 2003, é disputada no formato de pontos corridos. Não querendo entrar na discussão de fórmulas de disputa, até porque considero esse formato ideal para o campeonato nacional, é fato dizermos também que menos surpresas ocorrem. Quanto mais maluca a forma de disputa, mais chances de resultados improváveis teremos. E, nos primórdios das competições nacionais, tínhamos “gênios” bastante criativos nesse sentido. Em 1985, também por conta disso, o título nacional teve uma das finais mais improváveis da história, entre Bangu, do Rio de Janeiro, e Coritiba.

Na época, o Campeonato Brasileiro abria o ano, com os estaduais sendo disputados no segundo semestre. Em 1985, teríamos também uma pausa de 1 mês na competição, para disputa das Eliminatórias da Copa do Mundo de 1986.

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Na primeira fase da competição, tínhamos 86 clubes, divididos em 4 grupos. Dois com 20 clubes mais bem colocados no ranking da CBF da época e dois com 24 clubes provenientes dos campeonatos estaduais do ano anterior. O Coritiba, que tinha como grandes destaques o atacante Lela (pai dos jogadores em atividade Alecsandro e Richarlyson) e o técnico Ênio Andrade, ficou no Grupo A, formado pelo ranking. Já o Bangu, cujo grande destaque era veloz e habilidoso ponta-direita Marinho (que jogou pela seleção olímpica do Brasil em 1976/Munique), ficou no Grupo D, com as equipes que vinham dos estaduais (entre elas, Ponte Preta, Brasil de Pelotas, Vila Nova-MG e Brasília).

O Coritiba, num grupo bem mais forte, começou irregular a competição, mas recuperou-se e venceu o segundo turno

Lela, destaque do Coritiba de 1985. Foto: Gazeta do Povo

do seu grupo garantindo vaga na segunda fase, enquanto o Bangu sobrava em seu grupo, vencendo os dois turnos. Jornais da época se encatavam com Marinho e diziam que o camisa 7 da equipe carioca estava tendo uma temporada a lá Garrincha na Copa de 62. Exageros a parte, havia quem pedia a convocação de Marinho para a seleção brasileira, principalmente para criticar o treinador Telê Santana que, talvez pela primeira vez na história da seleção, organizava a equipe sem pontas.

Voltando ao campeonato nacional, a seguda fase previa um regulamento mais simples de ser entendido. Com 16 classificados da primeira fase (4 de cada chave), as equipes foram dividas novamente em 4 grupos de 4 clubes, jogando turno e returno com o melhor colocado de cada grupo indo para as semi-finais. O Coritiba ficou no Grupo G, junto de Sport Recife, Joinville e Corinthians. Com três vitórias e dois empates venceu o grupo com 8 pontos (a vitória valia 2 pontos na ocasião). Já o Bangu venceu o Grupo H com 10 pontos, enfrentando o Internarcional de Porto Alegre, Vasco da Gama e Mixto-MT.

Marinho era o grande jogador do Bangu. Foto: O Curioso do Futebol

Nas semi-finais, disputadas em ida e volta, o Bangu travou um duelo com o Brasil de Pelotas, com jogos no estádio Olímpico, em Porto Alegre, e no Maracanã. Duas vitórias, 1×0 no sul e 3×1 no Rio de Janeiro colocaram a equipe carioca na final contra o Coritiba que teve muito mais trabalho para passar pelo Atlético-MG (1×0 em Curitiba e 0x0 no Mineirão).

E a final improvável, disputada em jogo único com mando do time de melhor campanha durante a competição, teve como palco o Marcacanã. 91.257 pessoas lotaram o estádio para ver Índio abrir o placar para o Coritiba e Lulinha empatar para o Bangu. E, pela segunda vez na história do Campeonato Brasileiro, o título seria disputado nos penaltis. Nas cinco cobranças de cada equipe, 100% de acerto dos batedores. Nas alternadas, Ado errou para o Bangu e Gomes converteu a cobrança que deu o primeiro título brasileiro de um clube paranaese. Terceiro time diferente que Ênio Andrade consagrava campeão nacional.

 

Histórias como essa são possíveis quase que somente em campenatos com essas fórmulas malucas de disputa, com várias fases e grupos. Aumentam as chances do inesperado ocorrer. Mas em nada tiram o mérito das duas equipes, que foram as melhores do ano 1985.

O Bangu ainda protagonizaria duas histórias interssantes no ano. O retorno de Claudio Adão para a disputa do estadual no segundo semestre e o fatídico lance (criminoso, diga-se) do zagueiro Márcio Nunes em Zico, em jogo contra o Flamengo no mesmo Estadual. A entrada foi tão forte que Zico ficou longe do gramado por muito tempo, quase desfalcando a seleção brasileira na Copa de 86. E, mesmo estando lá, foi claro que não jogou com 100% de suas condições físicas.

As duas equipes também disputaram a Libertadores da América no ano seguinte, sem grandes destaques. O Coritiba continua sendo uma equipe importante no cenário nacional, disputando inúmeras vezes a primeira divisão e complicando qualquer equipe dentro e fora dos seus domínios. Já o Bangu, com os campeonatos estaduais sendo cada vez mais relegados, não teve força para se manter em alto nível. Mas ficam as histórias de vários jogos contra equipes grandes disputados no seu acanhado e simpático estádio de Moça Bonita.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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