Crônica – “El dia que me quieras” chegou

(Foto: Getty Images)

Eu amo o futebol. Amo com toda a minha alma, com todas as minhas forças, até a última gota de sangue e de suor, que saem de mim pelo futebol. Desde que saí da Argentina, aos 9 anos, reconheço que a minha relação com o país mudou. Mas não porque eu não tenho o sentimento de pertencimento a Albiceleste e a tudo que cerca essa nação. É justamente o contrário: por mais que eu demonstrasse, corra e lute nos gramados, eu nunca havia sido aceito. Sempre fui o europeu, o sem alma. O que não faz as mesmas coisas que desfila na Europa quando atua pela seleção. Nem no meu “barrio viejo” em Rosario, que viram os meus primeiros passos e chutes, me aceitavam totalmente como um deles.

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Se esquecem que eu não queria ir, que eu não pensava em partir. Eu só amava o futebol e tive a oportunidade de fazer o que mais gosto em Barcelona. Graças ao tratamento para que eu pudesse me desenvolver e crescer, pude chegar a ser profissional. Ainda assim, sempre sonhei em jogar pelo meu país. Vi com “desdén” a proposta de jogar “En un pueblito español“, mesmo com eles me oferecendo um bom dinheiro para isso. Mas nada poderia comprar o meu sonho. Meu sonho sempre foi invergar o azul e branco, desfilar com a 10 e ser feliz com o meu país. Sempre sonhei em jogar nos grandes palcos de “Buenos Aires“. 

Cheguei. Conquistei títulos pelas categorias de base, uma medalha de ouro nas Olimpíadas. Mas eu queria mais. Sempre quero mais, quero jogar, marcar gols, driblar, ajudar os meus companheiros. Venci tudo o que podia na Europa. Ainda busco os triunfos com a seleção. Abdico de descansos, faço longas viagens para a “Lejana terra mia“, tento não me afetar com a desorganização do comando do futebol argentino. Isso tudo porque eu amo a Argentina. Vocês não imaginam o “Silencio” da minha alma quando me tratam como se não fosse um de vocês, argentino. Não imaginam a “Amargura” que sinto por ainda não ter conquistado um título na seleção. Se cheguei a dar “Adiós Muchachos” foi porque pensei que talvez a minha partida fosse o melhor após três derrotas doloridas.

Mas voltei. Não consigo ficar longe de você, da 10, do azul e branco que me ilusiona e que faz o meu coração palpitar mais rápido. Fiquei com a “Alma en pena” mas voltei forte e com gana de vencer contigo, com esse povo. Mas essas eliminatórias não foram fáceis. Eu acabei perdendo a cabeça e fiquei fora de alguns jogos, na torcida. As coisas não iam bem quando voltei. Sentia a mesma dor que vocês pelos resultados, mas voltaram a me acusar de não sentir a seleção. No fundo, tudo fica pior porque sei que vocês esperam coisas grandes da minha parte. Desapontar vocês dói. Mas depois do jogo de ontem, onde conseguimos a vaga para o mundial com uma boa atuação minha e dos meus companheiros, a felicidade é incalculável.

Mas não estou feliz não só pelos elogios, pelos três gols, pela classificação para a Rússia. Estou feliz porque finalmente, consegui sentir que vocês me aceitaram como um de vocês. Que sente, que chora, que sangra por essa camiseta Albiceleste. Vamos ao mundial, com a ilusão que poderemos finalmente estar verdadeiramente juntos, acreditando que dessa vez, será possível. Finalmente, “El dia que me quieras” chegou.

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