De olho em Tóquio – Dinheiro nem sempre é sinônimo de medalha

Duas notícias, não necessariamente relacionadas entre si, movimentaram o noticiário dos esportes olímpicos brasileiros nas últimas semanas. A primeira foi que o Ministério dos Esportes reduziu em cerca de 87% o investimento nas modalidades olímpicas. A segunda, a prisão de Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, por, entre outras acusações, esconder ouro na Suíça. Meu colega Rafik já comentou a prisão de Nuzman aqui. Meu objetivo nesse texto é entender a relação das duas notícias e refletir sobre o futuro das modalidades olímpicas no Brasil.

Comecei o post dizendo que as duas não estão necessariamente relacionadas. Embora possa parecer justo que uma entidade em que o presidente é preso por corrupção não receba repasses de recursos públicos, certamente não foi por isso que o Ministério dos Esportes teve a redução das verbas. Não querendo entrar na dualidade política que o país vive, é certo afirmar que vivemos uma recessão econômica que está dando os primeiros sinais de recuperação nos últimos meses. E aí a conta é simples: menos dinheiro entrando para os cofres públicos, menos dinheiro pode sair para projetos de todas as áreas. Isso sem contar a corrupção que assola 90% da categoria política brasileira.

Porém, antes de esbravejarmos sobre a queda do dinheiro público nas modalidades olímpicas, pergunto eu: o que os Jogos Olímpicos no Brasil, com todo o investimento feito na estrutura física da cidade-sede e nos esportes em geral, deixou efetivamente de legado? E quando digo de legado, falo de prosperidade para as modalidades. Tivemos a Confederação Brasileira de Basquete punida pela FIBA por má gestão e dívidas milionárias. Os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos foram envolvidos em acusações de corrupção. A mesma confederação noticiou a dificuldade de encontrar recursos para financiar atletas de expressão, como Bruno Fratus, nos seus treinamentos e competições fora do país. A maioria das confederações dos esportes olímpicos, com raríssimas exceções, depende exclusivamente de verbas federais para se manter ativa. Quais práticas de gestão estão sendo executadas por ligas, clubes e federações estaduais de diversos esportes?

É claro que sem dinheiro não dá para se pedir muito de atletas. E também é claro que há modalidades como canoagem, tiro ao alvo, e vela (para citar algumas que já deram medalhas para o Brasil) não tem como sobreviver de bilheteria e publicidade, por serem de nichos muito pequenos e baixo alcance mercadológico. Mas sem gestão eficiente, transparente e, sobretudo, honesta, também não. E com o modelo de federações e confederações que temos no Brasil, é bem difícil que isso aconteça, porque a prática das organizações que cuidam das modalidades é idêntica a que vemos na política nacional. É tudo no jeitinho, no toma lá dá cá, na troca de votos por vantagens pessoais. Poucas são as confederações que conseguem fazer um trabalho estrutural e de base bom para garantir o futuro de suas modalidades. Vivemos, em muitas, basicamente de fenômenos isolados.

Enfim, a situação dos esportes brasileiros vai ser muito crítica nos próximos anos. Para Tóquio, excluindo modalidades tradicionais como vôlei (de quadra e praia), judô e vela, deveremos ter pouquíssimas alegrias e uma redução sensível do número de medalhas. Se não mudarmos a forma de se gerir o esporte, não temos chance nenhuma de quebrar a monocultura futebolística que vivemos desde sempre e seguiremos torcendo por fenômenos isolados, sem um trabalho de longevidade. Tão importante quanto o dinheiro, é a gestão das modalidades, que precisam de competições e intercâmbios fortes para que o Brasil dê um passo à frente como nação esportiva. E, investindo em gestão do esporte, como consequência, estará se investindo em saúde e educação. Basta levar a sério e com competência.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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