Futebol fora da mídia #12 – O sorriso sírio

Por: Lucas Tinôco (Twitter: @lucastinocof)

O maior caos do planeta Terra se passa bem ali, na Ásia Ocidental, em um país pequeno com uma população cerca de 12 vezes menor que o Brasil. É a guerra na Síria. Já tem tanto tempo que caiu na banalidade. Os atos radicais no país quase não são divulgados, fora quando é algo novo, como o uso de uma arma química em abril deste ano, ou então quando uma grande capital é atacada por terroristas e isso, automaticamente, remete aos terrores vividos pelo povo sírio.

Em meio ao caos total, os sírios tiveram momentos tão alegres que abafaram ainda mais a guerra. Ah o futebol. Capaz de unir amistosamente duas grandes nações em meio a uma das maiores guerras da história. E há quem ainda ousa dizer que é “apenas futebol”, que não tem importância. Coitados! Não sabem o quão estão redondamente enganados.

Mil cento e dez minutos. Entre os 10 jogos das Eliminatórias mais os dois da repescagem e os 30 minutos da prorrogação. Foi esse o tempo que fez do futebol um “oásis para esquecer tanto sofrimento”, como disse o saudoso Marcos Uchôa. Jogando bem longe de casa (na Malásia), para fugir do mal que dura 7 anos e matou meio milhão de pessoas, a seleção síria engatou cinco jogos sem perder (quatro empates) e conseguiu, com gol do herói Omar Al-Soma nos acréscimos, se classificar para a repescagem que levaria para a repescagem “de verdade”. Quanta alegria. Já era muito, já era memorável.

Na repescagem uma experiente e cascuda Austrália, acostumada a momentos como este. Na Malásia, saíram atrás e Al-Soma, novamente, empatou o jogo. Na volta, no imenso ANZ Stadium, em Sydnei, Al-Soma colocava os sírios na repescagem aos 6 minutos. Passados mais sete, o experiente Tim Cahill empatou o jogo. Pudera. Cahill, aos 38 anos, disse aqui no Brasil que aquela seria a sua última Copa do Mundo. Mais de três anos depois, o maior astro da seleção australiana, já no segundo tempo da prorrogação, marcou o tento que pode colocar o seu país e se colocar em sua quarta Copa consecutiva, a quinta da sua história. Herói.

Voltamos então pro também herói Al-Soma, que ainda cobrou uma falta na trave. Se entra, estaria a Síria agora na repescagem. Uma imagem focada no rosto dele antes da cobrança mostrava nos olhos vermelhos e cheios de lágrimas, ressaltava a tristeza de quem, a partir daquele jogo, voltaria a ouvir o nome do seu país novamente envolvido em tragédias, assassinatos, bombas, armas químicas e mortes.

Al-Soma e cia mereciam, pela vontade e dedicação, dar essa alegria para uma população tão sofredora. Mas a entidade maior lá de cima, seja Deus, Alá, Buda, etc, certamente guarda um momento grandioso para o povo sírio, e enquanto ele não vem, a Copa do Mundo os saúda com um “até breve”.

Lucas Tinoco

21 anos, baiano e aspirante a jornalista esportivo. Fanático por esportes em geral, principalmente futebol. Adepto das ligas europeias e do futebol alternativo. Líder do Editorial de Futebol Internacional do HTE Sports.

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