Islândia – O longo caminho para a Rússia

Cerca de 340 mil habitantes, índices de qualidade de vida elevados e taxas de desemprego e pobreza quase nulos. Essa é a Islândia, país que disputará uma Copa do Mundo pela primeira vez, se tornando o menor a conseguir este feito em toda a história.

Para os desavisados, essa não é uma história sobre um fato isolado, um acaso do destino no futebol, por isso vamos tentar entender esse processo de evolução que foi longo e doloroso, mas que alcançou uma épica conquista, entrando para o hall das grandes histórias do esporte.

A palavra chave para este sucesso é INVESTIMENTO. O governo dedicou um grande valor para a melhoria do esporte no final dos anos 90. Construíram vários campos aquecidos com gramados sintéticos, pois as temperaturas no país são sempre baixas, fato que afastava adeptos do esporte no país. Outro fator importante foi fornecer seminários e estudos sobre futebol para alavancar a profissão de treinadores, preparadores físicos, etc, para os times do país. Regras foram criadas para os clubes profissionais, abrindo a possibilidade das equipes ganharem patrocínios.

Em 2003 poucos profissionais no país tinham a licença da UEFA para exercer a função, hoje esse número já passa dos 700. Treinadores qualificados geram melhores jogadores, por isso o início dos anos 2000 foi essencial para o futebol no país. Com uma base forte, o campeonato nacional foi melhorando e consequentemente a seleção foi ganhando atletas mais capacitados. Era o início de uma nova era para o futebol na islandês.

Naquela época o grande nome da seleção era Eidur Gudjohnsen, que atuou por Chelsea e Barcelona nos anos 2000, mas ainda era cedo para analisar um trabalho que todos sabiam que seria de longo prazo. Neste período, 60% a 75% dos jogadores convocados para a seleção não eram considerados profissionais pela federação do país, mesmo jogando na própria Islândia.

Em 2011, com o projeto de crescimento mais consolidado no país, tinha chegado a hora voltar a atenção para a seleção nacional. O sueco Lars Edvin Lagerbäck foi o escolhido como treinador, tendo em sua bagagem duas classificações para a Copa do Mundo com a Suécia, além de três participações em Eurocopas, e para ser seu auxiliar trouxeram um treinador local: Heimir Hallgrímsson.

O projeto teria como primeiro desafio as Eliminatórias para a Copa do Mundo no Brasil. O retrospecto da seleção neste torneio era péssimo, pois além das poucas vitórias, a equipe passava longe de conseguir uma vaga. No entanto, a vitória na estréia contra a Noruega, em casa, por 2 a 0, deixou todos surpreendidos e animados. No total foram 5 vitórias e 2 empates nas 10 partidas da primeira fase, e a vaga na repescagem garantida. O adversário foi a Croácia. No primeiro jogo 0x0 em casa, mas na volta Mandzukic, Modric e cia venceram por 2×0 e acabaram com o sonho da Islândia. A tristeza foi grande, uma vaga para o mundial nunca esteve tão perto, mas o trabalho tinha que continuar.

O sonho de disputar a Eurocopa ocupava a cabeça do país inteiro, principalmente após terem quase se classificado para o Mundial de 2014. Era um grupo complicado com Holanda, Turquia, República Tcheca, etc, mas a equipe conseguiu 6 vitórias e 2 empates, e pela primeira vez a Islândia disputaria um torneio europeu. De cara foram dois empates nos dois primeiros jogos contra Portugal e Hungria. O jogo contra a Áustria era essencial para a classificação, e acabou entrando para a historia. Um 2×1 alcançado em um contra-ataque no último minuto, fez um país, mesmo pequeno, gritar o gol mais saboroso da sua história, além de mostrar para o mundo o canto viking, que foi a marca daquela competição.

Nas oitavas de final o confronto contra a poderosa Inglaterra, e com três minutos de jogo os ingleses já estavam na frente. Em 15 minutos, porém, a Islândia conseguiu a virada, e mesmo sofrendo muita pressão, manteve o 2×1, garantindo a histórica classificação. Mesmo sofrendo uma goleada de 5×2 contra a anfitriã França, nas quartas de final, a história estava escrita: a Islândia entrou no mapa do Futebol, além de conseguir dobrar, ou até mesmo triplicar, seus torcedores pelo mundo.

O sueco Lars Edvin Lagerbäck deixou o comando da seleção, seu o cargo ficou nas mãos de seu auxiliar Heimir Hallgrímsson, e com a mesma capacidade ele fez o dever de casa, mantendo a equipe em constante evolução. Fato que foi comprovado nas eliminatórias para a Copa da Rússia. A histórica classificação, que foi direta, sem repescagem, foi construída com 7 vitórias e 1 empate em 10 jogos, deixando para trás seleções como: Croácia (a mesma que eliminou a Islândia da Copa de 2014), Ucrânia, Turquia, etc.

É certo que o futebol já nos proporcionou grandes histórias, mas quando você consegue ver que o sucesso é alcançado após um longo período de trabalho árduo e bem projetado, a vitória é muito mais saborosa. O que esperar da Islândia na Rússia? A evolução está sendo constante, a equipe é taticamente muito bem montada e hoje possui bons jogadores como o Sigurdsson, mas o segredo talvez seja não esperar nada deles, e deixar que eles nos surpreendam, assim como os guerreiros Vikings.

Guilherme Vechiato

28 anos. Apaixonado por Futebol. Formado em Administração, mas com aquela paixão por jornalismo. Moro no Interior de São Paulo, coração Palmeirense doente, mas sempre de olho no Leeds e no Liverpool da Inglaterra. Twitter: @guivechiato

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