Opinião – Respeitem o futebol nordestino

O título pode soar ofensivo, pretensioso e bairrista. O curioso é que são essas três características que me motivaram a escrever tal texto. Mas não é pelo conteúdo do texto ser ofensivo, pretensioso e bairrista, mas justamente pela maneira pela qual o futebol do nordeste é tratado pela grande mídia do sul e sudeste do Brasil, reconhecidamente o grande centro financeiro do país e que concentra os clubes com maior alcance midiático, até pela centralização da mídia nessa região.

Ano após ano, a cobertura do Campeonato Brasileiro é realizada em cima das equipes de São Paulo e do Rio de Janeiro, com alguma relevância para os mineiros e gaúchos se estiverem em boa fase. Os clubes do nordeste são tratados como meros participantes nas competições, mesmo tendo uma fatia grande do mercado de torcedores no país, consequentemente dos telespectadores. A cobertura da grande mídia normalmente retrata o que o time do grande centro fez/não fez para vencer/perder e não o que o clube do nordeste faz para conquistar o resultado. O mesmo vale para as notícias sobre interesses de clubes do sul e sudeste com relação a jogadores que atuam no nordeste. A imagem que passa é de que os nordestinos tem de liberar os jogadores de qualquer forma, como se fosse questão apenas de querer ou não trazer o jogador.

Para a Folha de S. Paulo não foi o Bahia que venceu o Corinthians e sim os erros (Imagem: Reprodução / Twitter)

O que eu muitas vezes enxergo é uma certa ignorância, no sentido literal da palavra, sobre as reais condições do futebol do nordeste. Não que os clubes grandes aqui nadem em dinheiro ou tenham grandes esquadrões, mas até pelo nível paupérrimo do atual futebol brasileiro, a distância diminuiu significativamente entre os dois centros futebolísticos. A Copa do Nordeste, por exemplo, é a melhor competição do país no primeiro semestre. Ao contrário de estaduais falidos (inclusive na própria região), o torneio tem boa rentabilidade, grande público, acirramento de rivalidades regionais e uma grande estrutura comandada por uma liga de clubes, coisa que o chamado grande centro do futebol brasileiro ainda não conseguiu realizar.

Conhecer um pouco mais da realidade local, do torcedor, da organização dos clubes, respeitar a história. Sim, respeito a história. Porque clubes como o Vitória, Sport e Bahia, para ficar nos exemplos de primeira divisão, já chegaram a finais de brasileiro e Copa do Brasil, somam 4 títulos nacionais e tem uma boa fatia do mercado SIM. O que falta é o maior afinco em dar amplitude na cobertura dessas equipes, fazendo com que essas equipes sejam respeitadas pelo tamanho que tem no futebol brasileiro. Não dá pra um grande resultado do Vitória sobre o Corinthians ser tratado como “vacilo” ou como “golpe de sorte”. Vágner Mancini, na ocasião, chegou a ser duro com um repórter da rádio Bandeirantes, que parece não ter enxergado a grande partida tática e técnica que o Vitória fez na Arena Corinthians. E esse é só um dos exemplos.

Ao meu ver, a má vontade também existe, mas não é o principal fator para o tom da atual cobertura do futebol nordestino. O desconhecimento do que está sendo feito, da movimentação diária e do futebol que é praticado pelos clubes. Parece até piada, tendo em vista a tecnologia atual e as possibilidades de se assistirem jogos dos nordestinos pela tv e até mesmo pela internet. Mas é fato que muito da ausência de cobertura das equipes nordestinas se dá por esse desconhecimento. Vale a pena repensar o jornalismo esportivo praticado atualmente…

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