De olho em Tóquio – A luta contra o assédio

Thomas Bach, presidente do COI (Foto: ESPN)

Surfando na onda dos casos de assédio sexual que continuam a inundar o noticiário de Hollywood, com diversos diretores, produtores e atores sendo denunciados, o COI lançou na semana passada passada seu manual de proteção de atletas contra a abuso e assédio, que você pode conferir aqui . Num assunto tão delicado e espinhoso, o COI age certo ao promover, junto das federações olímpicas nacionais, essa cartilha. O documento traz um passo a passo de como implementar políticas e procedimentos de proteção a atletas. Com esse documento, o objetivo do COI é que todas as organizações esportivas implementem o passo a passo descrito no manual para alcançar um impacto duradouro quanto ao bem-estar dos atletas. O manual foi produzido a partir de experiências internacionais e diretrizes já existentes sobre o assunto, além de se basear em pesquisa médicas e estudos de casos conduzidos em todo o mundo.

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Em coletiva na apresentação do documento, Tomas Bach, presidente do COI, ressaltou a importância das denúncias nesse processo. “Nós parabenizamos a coragem dos atletas em falar sobre incidentes de assédio e abuso e os apoiamos em suas ações. A segurança e o bem-estar dos atletas são fundamentais para o COI e o movimento olímpico. É responsabilidade de todos nós manter os atletas seguros e proteger seus direitos”, disse.

A denúncia é um ponto chave desse processo, mas também um fator que gera muita insegurança por parte dos atletas. Fazendo novamente uma relação com os casos que temos acompanhado do mundo do cinema, podemos notar que muitas das denúncias foram realizadas de forma tardia, anos depois dos acontecimentos. O motivo principal disso é o medo que atores ou personalidades mais jovens de carreira ou de “menor relevância” no mundo cinematográfico tem das consequências de uma acusação dessa natureza na sua carreira. E é um medo justificável, diante de como a sociedade lida com essas situações.

Para explicar melhor, vou utilizar uma série norte-americana de muito sucesso exatamente nessa área, a Law and Order – Special Victims Unit, seriado focado basicamente em vítimas sexuais e que já está em sua 19ª temporada. Curiosamente, na 18ª temporada houve um epsiódio dedicado ao caso fictício de uma atleta olímipica, do salto com vara, que sofreu um estupro. Não entrando na conclusão do caso em si e mais da condução do mesmo, podemos ver um padrão geral de qualquer caso jurídico com apelo de mídia. Enquanto a acusação faz o papel de buscar os motivos e oportunidades o réu de ter cometido o ato, a defesa faz o papel inverso, desqualificando a denunciante, trazendo fatos do passado que nem sempre interferem no caso. Em consequência disso, a vítima acaba por perder seu apoio da mídia, dos empresários e dos patrocinadores.

Esse é o principal receio enrustido em qualquer atleta que sofra um assédio ou uma violência. O medo de prejudicar suas próprias carreiras, seus sonhos de participar de um Jogos Olímpicos, de como será o tratamento da opinião pública. Vivemos numa época complicada onde todos se sentem seguros de falar qualquer coisa atrás de um computador, não importando as consequências que isso acarrete. Todos somos críticos de tudo e de todos. Só que, na maioria das vezes, fazemos os julgamentos pelas manchetes. O manual do COI é um importante passo, mas não basta só as federações fazerem seu trabalho. Nós também temos que criar consciência ao comentar qualquer denúncia. Assim estaremos ajudando para que elas sejam mais rápidas, com apuração veloz e sem prejuízo na carreira dos atletas.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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