A condição psicológica importa

A situação de Alex Muralha ainda é um prato cheio para os noticiários esportivos e discussões entre torcedores. O goleiro, que falhou por diversas vezes na temporada, sofreu muita pressão, tanto da imprensa, quanto dos torcedores em geral. Ao contrário, César, quarto goleiro, teve sua chance, e com muito menos “peso nas costas”, brilhou. Mas, como pode-se explicar isso?

A questão psicológica. Ela importa muito no futebol, em qualquer outro esporte e fora dele. Pense você, na época de vestibular, o quanto não ficou nervoso e o quanto hoje você não se lamenta por possivelmente ter tido um resultado melhor se estivesse melhor equilibrado emocionalmente. Ou então, naquela entrevista de emprego que você cumpria todas as exigências do cargo, mas se perdeu nas respostas por conta do nervosismo e não foi contratado. Pois bem. Agora, você há de concordar que o estado emocional importa. Muralha foi muitíssimo bem no Figueirense, e até no Flamengo. Teve 5 convocações para a Seleção. Um goleiro tecnicamente ruim não seria chamado por um dos maiores técnicos do Mundo.

McGrath (1970) define o estresse como um desequilíbrio substancial entre a capacidade de demanda física ou psicológica e a capacidade de resposta, condições em que o fracasso e a satisfação de uma certa demanda tem consequências importantes. E o estresse, segundo Samulski (1996) influencia na secreção de hormônios e no funcionamento do Sistema Nervoso Central. E o SNC é quem mantém a estabilidade do organismo (Guyton, 1989). Foram citados autores aqui de forma proposital. Para ter mais uma prova de que isso não é “frescura”, como muitos dizem. Nada tem a ver com hombridade ou ser “raiz” ou “nutella”. A condição psicológica importa e importa muito.

Agora, imagine a situação contrária. Alguém que entra para fazer qualquer coisa e não se espera nada ou quase nada dele. Ou seja, não está estressado. A resposta desse indivíduo, podemos concluir de acordo com escrito acima, é muito melhor a qualquer tipo de estímulo. Foi o caso de César contra o Junior Barranquilla, na semifinal da Sul Americana. Fez defesas importantíssimas, e, com tranquilidade, ainda defendeu um pênalti. Claro, é um mérito do goleiro reserva ter essa condição. Por diversos fatores, como Inteligência Emocional (algo que pode ser abordado em outro texto), apoio externo (familiar, da torcida ou dos diretores) e etc. Mas há de se considerar que Muralha, sim, foi prejudicado pela pressão externa a ele.

Essa não é uma tentativa de defender ninguém, não sou paos para isso. É apenas uma visão diferenciada do assunto. E essa não foi a primeira nem a última vez que isso aconteceu. Muralha e César foram personagens de um cenário geral, como a personagem de uma novela que representa alguém da sociedade. Esse texto prova que jogadores, ao contrário do que muitos pensam, não são super heróis, não são mutantes, eles têm sentimentos e são afetados por fatores externos (que são internalizados) como qualquer um de nós. E fica, também, a crítica pela falta de Inteligência Emocional geral em não conseguir reconhecer e ter a compaixão por um ser humano que, repetindo, falha como eu e você, e, além, pelos clubes não darem a devida importância para o psicológico dos profissionais que vão a campo. Não são um ou dois psicólogos que, contratados fixa ou esporadicamente, vão dar conta de um plantel gigantesco de jogadores e outros profissionais. Da próxima vez que acontecer episódio parecido com outros jogadores, que se pense e se julgue (ou não julgue) de forma diferente.

 

Thiago Cunha Martins

Paulistano, alvinegro, co-fundador e Diretor-geral do HTE Sports. Jornalismo por paixão, Psicologia por vocação. Adorador do futebol e tudo o que o rodeia. Fã curioso da NFL, UFC e eventual seguidor de outros esportes

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