De olho em Tóquio – Se não for sério, melhor ficar de fora

Vivemos num país esportivamente monopolizado. Não é mistério para ninguém que o futebol é o maior gerador de paixões e, consequentemente, de movimentação financeira. Esportes Olímpicos (detesto chamá-los de amadores), ficam sempre em segundo plano. Alguns tentam se sobressair com boas ligas, como o caso do vôlei, com as Superligas masculinas e femininas, e o basquete, com o NBB para os homens e, quem sabe agora, com a LBF para as meninas. Para chamar o público, uma opinião quase que uníssona no ramo esportivo é a entrada dos clubes de futebol, que trazem consigo já um contingente de torcedores que podem encher ginásios e criar uma cultura consumidora dessa modalidade. Flamengo, no basquete, e Cruzeiro, no vôlei, são os bons exemplos que temos. Mas, como disse meu grande amigo Thiago em seu texto sobre o a gestão do futebol nacional, somente torcida e dinheiro não fazem milagres sozinhos. E se não houver seriedade no trabalho, melhor ficar de fora.

A notícias sobre atraso de pagamento do time de basquete do Vasco em meio a 10ª edição do NBB não chegam a ser chocantes ou causar estranheza. A equipe cruz-maltina, embora tenha em seu histórico outras participações na elite da modalidade, praticamente sempre esteve recheada de problemas e uma gestão completamente amadora, no pior sentido da palavra. Se na virada do século tinha um dos melhores times do Brasil, com Charles Byrd, Helinho, Josuel, Rogério Kraft entre outros e chegou a disputar um histórico jogo contra o San Antonio Spurs na final do McDonald’s Championship, uma espécie de Mundial de Clubes da época, os atrasos de salários dos jogadores era notícia recorrente. E mesmo com boa campanha na edição do ano passado do NBB, o Vasco novamente encerrou a temporada com salários atrasados. E começou esse ano fazendo contratações de impacto (ou seja, salários considerados altos para o padrão do basquete nacional), com Fúlvio, Gui Deodato e Guilherme Giovanonni.

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Muitas dessas contratações foi motivada justamente por conta da rivalidade que vem do futebol com o Flamengo, que hoje é uma das principais forças do basquete nacional, tendo conquistado 5 das nove edições do NBB. Com o medo de ficar na sombra da equipe rubro-negra faz as atitudes na gestão do basquete vascaíno serem tomadas de maneira pouco inteligente, para dizer o mínimo.

De acordo com o levantamento reproduzido no blog Bala na Cesta, a direção do Vasco previa 8,5 milhões para a temporada em patrocínios. Se olharmos que o futebol, esporte que tem um milhão de vezes mais visibilidade por estar direto na TV aberta, fechada, pay-per-view, com estadual e brasileiro ocupando o ano todo dos torcedores, conseguiu 11 milhões de reais em 2017 de patrocínio master de uniforme da Caixa Econômica Federal, como que a equipe de basquete, que não tem estadual e o NBB dura 6 meses basicamente, conseguiria praticamente 80% do valor do futebol? Só dá para falarmos que a gestão do esporte não é levada a sério. E não levando a sério, é melhor nem participar.

Com isso, a imagem do Vasco fica arranhada. Se os jogadores brasileiros do Vasco foram, digamos, cordeirinhos, não dando declarações polêmicas e não cobrando o que é DIREITO deles, pelo menos o americano David Jackson botou pilha na situação, abandonando a equipe. Afinal, se não é pago, também é melhor não jogar. Ou você gosta de trabalhar sem receber? Ainda mais tendo alguém que estará bem pertinho da sua orelha pronto para lhe criticar a qualquer momento.

Se os clubes de futebol quiserem entrar nos esportes olímpicos, certamente são bem-vindos. Com trabalho sério, podem chamar aumentar sua base de torcedores fora de sua cidade-base, com parceiras com prefeituras para disponibilização de ginásios ou espaços para modalidades como atletismo, natação entre outras. Também podem aumentar suas fontes de receitas, com produtos licenciados dessas modalidades (experimenta buscar uma camisa de basquete de um clube para ver a dificuldade de encontrar). Mas, não sendo sério, além de arranhar a imagem perante a comunidade, prejudica a modalidade que não conseguirá estabelecer competições sérias e atrapalha o desenvolvimento de atletas, pois muitos irão enxergar dificuldades de se profissionalizar. Como eu sempre ouvi dos meus pais, se for se propor para fazer algo, que faça direito.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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