Má administração dos clubes brasileiros: não é só futebol

Time brasileiro, geralmente, tem pouco dinheiro. E se tem dinheiro, é mal gerido: contratações que não vingam, jogadores com salário muito alto e pouco futebol. O problema dos clubes brasileiros é muito mais do que só futebol. Há problemas, igualmente, na política futebolística. Juntando os fatos citados – política e economia – isso não lembra uma certa nação?

A questão financeira dos clubes é antiga. A maioria deles, até os de ponta, são mal administrados. Têm dívidas quilométricas, jogadores com salários e outros direitos atrasados, contratam mal e vendem mal.

O cenário parece mudar um pouco em relação às vendas de jogadores. Tomando como exemplo Vinícius Júnior, vendido por mais de 160 milhões de reais, Juninho Capixaba muito bem vendido ao Corinthians e Jô, contratado sem preço de transação e vendido por 43 milhões ao futebol japonês. Mas depender sempre da venda de um ou outro jogador para se sustentar é pensar muito pequeno.

É necessário que o clube seja auto-suficiente. Como? Com um plano de sócio que fidelize o torcedor, para que ele vá no jogo do estadual contra o time do interior da mesma forma que comparece ao jogo da Libertadores contra o gigante sul-americano; requerendo uma divisão melhor das divisões de cotas de TV; tendo como meta conquistar títulos, claro, mas sem se enfiar numa dívida que demorará anos para ser quitada.

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As contratações seguem sendo espalhafatosas. Por muitas vezes, não se conhece o técnico para temporada (ou o demite no meio do ano), não se tem um padrão de jogo, mas se contrata apenas para fazer o torcedor feliz, iludindo-o com a possibilidade que o craque de outros lugares seja o craque do time dele.

O Palmeiras e o Flamengo fizeram muito isso. Respectivamente, contrataram para os planos dos técnicos Eduardo Baptista e Zé Ricardo, e os demitiram sem que terminassem o ano. Claro, não é só o caso de Flamengo e Palmeiras, o Atlético-MG também fez isso, muitos outros times fizeram isso.

O Corinthians poderia servir de exemplo como uma gestão que contratou pouco, gastou e gasta pouco e tem bons resultados, e mantém os técnicos, mas fica a pergunta: se tivesse um grande montante de dinheiro e dívidas quitadas, será que não faria a mesma “loucura” dos outros clubes (incluindo o rival Palmeiras)? O que favorece o Timão é o padrão instaurado há quase uma década. Mano Menezes e Tite tinham ideias parecidas, o forte sempre foi a defesa. Carille, que estagiou com os dois, seguiu os passos. As contratações corinthianas passam de um técnico para o outro e servem pro esquema de jogo de forma perfeita. Prova disso é que o Corinthians é o brasileiro que mais venceu nos últimos 10 anos. Esse é o diferencial do planejamento, que deve servir de modelo.

A política também não é exemplar. É fácil trazer à tona: Eurico Miranda e a urna 7 no Vasco, os casos de polícia das organizadas com clubes cariocas, dentre tantos outros casos país afora, muitas vezes desconhecidos e não necessariamente somente no Rio de Janeiro. Política e economia futebolística no Brasil se assemelham muito com a política e economia geral da nação. Ambos sofrem com os problemas financeiros que eles mesmos criaram.

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Os eleitores não sabem eleger seus representantes nem para o congresso nacional, nem para a presidência do seu time do coração, e pouco participa politicamente nos dois. As “peças” que vestem camisas ou ternos ganham altíssimos salários e não rendem o quanto deveriam render.

Então, fica a questão, que já está respondida no desenvolver do texto acima: não seriam esses problemas culturais? Não seriam esses problemas de uma nação? Isso não vai muito além do futebol? E fica a pergunta, que não está respondida neste, e que cada um deve responder para si mesmo: como eu posso ajudar a transformar tudo isso, nos dois casos?

Thiago Cunha Martins

Paulistano, alvinegro, co-fundador e Diretor-geral do HTE Sports. Jornalismo por paixão, Psicologia por vocação. Adorador do futebol e tudo o que o rodeia. Fã curioso da NFL, UFC e eventual seguidor de outros esportes

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