UMA RAZÃO PARA VIVER #13 – Obrigado, Diego Souza!

 

Domingo, 07 de janeiro de 2018. O Sport Club do Recife concretiza a venda do meia-atacante Diego Souza para o São Paulo. O camisa 87, referência técnica do rubro-negro pernambucano nas últimas temporadas, estava concluindo sua saída do clube que, segundo suas próprias palavras, aprendeu a amar. Particularmente, esse que vos fala passou por uma mistura de sensações ao ler essa notícia. Só após ler um desabafo escrito por uma amiga (vulgo @LimaVanessa) que eu consegui organizar tudo e chegar à uma conclusão concreta sobre esse fim de relacionamento.

O desabafo de Vanessa foi embasado numa entrevista que Diego deu no programa Bate Bola Bom Dia da ESPN Brasil, em abril de 2017, e demonstra parte do que Diego se tornou no Sport, os desejos dele como jogador do Leão e o que ele sempre quis conquistar aqui:

Essa mudança de patamar aconteceu na Era Eduardo! Depois, veio só o declínio… Jogador nenhum do nível dele vai suportar viver nessa gangorra. Sejamos sinceros, quais as nossas perspectivas pra Sport em 2018? As piores possíveis! Ele não quis ficar pra arriscar. É ano de Copa, o cara viu que ainda tá muito valorizado, vai atrás da segurança. Hoje, eu aceito isso. Ano passado, ir pro Palmeiras com campeonato em curso, não aceitava, até porque estávamos no meio do ano, o Sport morreria e ele também tinha a responsabilidade de segurar o clube que o fez crescer e ser feliz de novo. Agora não, o ciclo se fechou, é início de temporada, o clube tá se organizado… É o momento! E depois de tudo passado, é melhor sair agora mesmo, que ainda lembramos de ser gratos. Se tivermos o 2018 que estamos prevendo, Diego sairia muito em baixa no clube e, talvez, até profissionalmente, se não for pra Copa. Pra ele, o momento é esse mesmo de sair. Pra nós também, apesar de ser doloroso. O status de ídolo ainda está preservado. Tecnicamente, é uma perda inestimável para o time, mas tem que ser assim.

Agora, se não acharmos um substituto de qualidade (que não vai ser no mesmo peso, em todos os sentidos, de Diego), vamos ter um ano sofrível! Só Marlone não dá conta. Esqueçamos um medalhão esse ano, o Sport tá mal visto, nem tem condições de investir também. Temos que ter competência e sorte! De grande referência nacional só termos André, então é torcer pra ele arrebentar. Ele, agora, vai segurar o bastão de Diego”.

Para explicar melhor o que foi Diego Souza no Sport, vamos mergulhar numa retrospectiva:

O ano é 2014. O Sport, no primeiro ano da parceria com a Adidas (encerrada no último dia 31 de Dezembro), vivia uma expectativa/busca pela contratação de um “jogador midiático” para jogar no club. O nome especulado e que realmente quase veio foi o do argentino Juan Román Riquelme, que na época estava em fim de contrato no Boca Juniors onde tem uma belíssima e vitoriosa história. Acabou que Riquelme não veio. Dias depois da negociação com o argentino não evoluir para uma contratação, mais precisamente no mês de agosto daquele ano, o Sport anunciou dois jogadores: Diego Souza e Ibson. Diego seria o tal jogador midiático que o Leão buscava e Ibson (como os dois jogadores são agenciados pelo mesmo empresário, Eduardo Uram) foi interpretado como um contrapeso na negociação. Naquele dia 12 de agosto, todos foram pegos de surpresa, tanto torcedores do Sport quanto a imprensa de todo o país, pois Diego tinha o nome especulado em times do sudeste e acabou fechando com o rubro-negro pernambucano.

Diego Souza e Ibson na chegada no Aeroporto dos Guararapes, em agosto de 2014. (Imagem: Diego Nigro/JC Imagem)

Diego recebeu a emblemática camisa 87 do Sport. Para todo mundo, aquilo seria mais um passo do processo do marketing que a contratação de um jogador do peso dele envolvia. Ninguém imaginava a importância que Diego Souza teria para o Sport nos anos seguintes e dois fatores explicam isso bem: a busca do Sport por um jogador midiático e o fato do contrato de Diego ser por empréstimo até o fim daquela temporada (o passe dele pertencia ao Metalist, da Ucrânia). Todos achavam que a vinda dele para o rubro-negro seria apenas uma tentativa dele mesmo de voltar ao mercado brasileiro após certo tempo “perdido” na Europa sem destaque algum. Diego Souza foi mais, muito mais que isso.

Diego e o primeiro contato com a Camisa 87 do Sport: uma conexão que acabou sendo muito mais do que se esperava. (Imagem: Diego Nigro/JC Imagem)

Em sua primeira temporada na Ilha do Retiro, Diego liderou o Sport para uma campanha sem muitos sustos na Série A. Terminou aquele campeonato em 11º e sua permanência para 2015 virou uma incógnita. Acabou que após uma extensa negociação com o Metalist, o Sport conseguiu acertar a permanência do jogador por mais um ano. O esforço demonstrado nessa negociação já mostrou que Diego se tornou uma peça importante para o time, que ele fazia o Sport estar em outro patamar. A diferença que ele causou no Sport já no primeiro brasileiro disputado com a camisa 87 do Leão fez o time perder aquele selo de “candidato ao rebaixamento” que lhe era atribuído em toda prévia do campeonato nacional. 2015 acabou sendo um ano histórico para o Sport Club do Recife. A imprensa pernambucana estava desacreditada, assim como a torcida rubro-negra, de que o Sport poderia fazer algo no Brasileirão após dois fracassos seguidos, no Campeonato Pernambucano e na Copa do Nordeste. O primeiro jogo do nacional era na Ilha do Retiro, contra os reservas do Figueirense e todos esperavam mais uma vergonha. O Sport se impôs e goleou. Na rodada seguinte, no Maracanã contra o Flamengo, um dos jogos mais emblemáticos de Diego com a camisa do Sport: fez gol, comemorou apontando para o número 87 em suas costas, mostrando para toda a torcida do Flamengo o que eles teimam, esperneiam e insistem em negar e̶ ̶c̶h̶o̶r̶a̶m̶ ̶t̶a̶n̶t̶o̶  que o Sport é o verdadeiro e ÚNICO CAMPEÃO BRASILEIRO DE 1987. Diego ainda teve que ir pro gol no lugar de Magrão, que se lesionou após o Sport ter feito as três substituições permitidas por jogo. A partir daí o Sport caminhou para sua melhor campanha no Campeonato Brasileiro na era dos pontos corridos, sendo liderado pelo quarteto Diego Souza, André, Marlone e Élber. Diego, inclusive, durante as férias, teve uns áudios vazados onde ele declarava seu amor ao Sport e ao Recife.

Em pleno Maracanã, contra o Flamengo, o Diego e o Sport tiveram uma belíssima atuação e mesmo com o empate sofrido, as nuances da partida foram bem mais importantes que os dois pontos perdidos no Rio. (Imagem: Cezar Loureiro / Agência O Globo)

A temporada histórica do Sport em 2015 teve um ponto chave no meio dela que para muitos foi o fator preponderante para a não-classificação para a Libertadores de 2016: a saída de Eduardo Baptista. Veio Falcão, que fez o Sport concluir bem a temporada e terminar o Campeonato Brasileiro em sexto. No início de 2016, QUATRO BAIXAS PESADAS: o quarteto que comandou o Sport em 2015 saiu por completo: Élber voltou para o Cruzeiro, André e Marlone foram para o Corinthians e Diego Souza foi para o Fluminense. O Sport se viu órfão dos seus principais nomes do ano anterior (coloque nessa lista o goleiro Danilo Fernandes, que após o PE16 foi para o Internacional). Porém, da mesma forma que foi sua chegada em 2014, seu retorno em 2016 foi todo trabalhado sem alarde. Diego demonstrou vontade de voltar ao Recife, voltar ao Sport, e toda negociação foi feita e só foi revelada quando estava tudo praticamente fechado. Cerca de três meses depois, Diego estava voltando para onde ele amava, para onde ele era realmente feliz. Estava voltando para casa!

Mesmo com o retorno de Diego, 2016 foi um ano tenso para o Leão da Ilha. Falcão, que antes salvara o time do espiral de jogos sem vitória durante os últimos dias de Eduardo Baptista como técnico rubro-negro, acabou demitido após se mostrar nada além de um entregador de coletes. Veio Oswaldo de Oliveira, que não fez muita coisa e acabamos o ano com Daniel Paulista salvando o Sport do rebaixamento na última rodada.

Em 2017, mais desorganização dentro do club. O ano foi de altos e baixos e o risco de rebaixamento foi real. O Sport começou o ano lutando pelo título da Copa do Nordeste (mesmo aos trancos e barrancos) e terminou a temporada se salvando do rebaixamento mais uma vez na última rodada do Brasileirão. Diego foi do mesmo jeito. Tanto fez partidas espetaculares, como o sonoro 3×0 em cima do Danúbio-URU na estreia na Copa Sul-Americana, onde ele e o Sport foram destaque no Top 10 Mundial da ESPN Americana, como também teve jogos bisonhos, como aquele 2×0 do Palmeiras dentro da Arena Pernambuco, ou o 1×0 do Avaí em plena Ilha do Retiro… Como foi descrito no texto de Vanessa, uma gangorra, ou como a FIFA descreveu numa matéria tempos atrás, uma montanha-russa. Durante os momentos de “alta” do Sport, Diego deu entrevistas como essa da ESPN já falada nesse texto. A quase saída dele para o Palmeiras já tinha mexido com a relação dele com a diretoria e quando esteve em baixa, além de ser muito cobrado e até xingado pela torcida do Sport, Diego quis arrumar briguinha até com a imprensa. Toda a relação dele com tudo que envolve o Sport estava estremecida. De quebra, ainda teve aquela maldita entrevista de Luxemburgo após a goleada sofrida pro Grêmio, em Porto Alegre. Foi um pacote de fatores negativos que caíram em cima de todos na Ilha do Retiro e que quase custaram a permanência na Série A, mas aí, mais uma vez, Diego chamou a responsa, dessa vez tinha André ao seu lado, coisa que não tinha em 2016, e o Sport se salvou do rebaixamento.

Diego, Mena (que não está na imagem) e André. Essa foi a jogada que livrou o Sport do rebaixamento em 2017. (Imagem: Williams Aguiar / Sport Club do Recife)

Um capítulo importante ainda não foi comentado nesse texto, que é justamente a presença constante de Diego nas listas do técnico Tite na Seleção Brasileira. De todas as convocações de 2017, Diego só não esteve presente em uma, justamente a que foi próxima a todo o imbróglio de sua quase transferência pro Palmeiras. Nas outras, estava ele lá. Por causa de suas belíssimas atuações pelo Sport em 2016 e suas boas atuações pela própria seleção em 2017, ele é um dos fortes candidatos para ser convocado para a Copa do Mundo da Rússia em 2018. O tópico Seleção Brasileira ficou por último nesse texto por um motivo específico: esse foi o principal fator para a saída de Diego do Sport (deixando claro que é na minha opinião). O Sport não terá grandes desafios nesses primeiros meses do ano, o que poderia fazer o meia perder espaço na briga por uma vaga na convocação final. O São Paulo, por si só, é uma vitrine maior nesse primeiro semestre. A escolha de Diego em sair do Sport é totalmente compreensível, visando justamente seu desejo de ir à Copa do Mundo. Se o valor que o São Paulo pagou não preencheu as expectativas da torcida do Sport, não iremos discutir isso aqui, o que importa é que Diego, enquanto esteve aqui, rendeu PARA o Sport e em sua saída fez o mesmo. Porém, mesmo assim, parte da torcida do Sport ficou revoltadinha com a saída do jogador, querendo pegar ele para Cristo, dizendo que ele não vai fazer falta, demonstrando uma ingratidão imensa por tudo que o jogador fez pelo club. Essa atitude por parte de uma parcela relativamente pequena de torcedores rubro-negros chegou a beirar o inadmissível, diga-se.

A parte final do desabafo de Vanessa fala do futuro do Sport. Sim, temos Marlone de volta e temos André, nosso artilheiro, com contrato longo, mas não temos Diego e será muito complicado repor tecnicamente à altura. Porém, isso faz parte do processo da vida. Ídolos vem e vão, Durval é um exemplo claro disso. Poucos são como Magrão, que ficou aqui todo esse tempo. O único que fica, para sempre, é o próprio Sport Club do Recife, esse club que nascemos sabendo amar e que passamos tanta raiva com ele e que às vezes ele faz uma “gracinha” para nos dar alegrias. É ele que fica e é com ele que vamos nos abraçar.

Agora, você leitor(a), me permita ser menos formal. Primeiro, um agradecimento: Diego Souza, a você eu dou os meus mais sinceros agradecimentos por tudo que você fez pelo Sport e também por nós torcedores, comprando nossas brigas e por inúmeras vezes nos representando Brasil afora e também expresso o desejo de que você alcance seus objetivos, pessoais e profissionais.

Ao Sport e seus torcedores (incluindo a mim mesmo), fica a dica da Beth Carvalho: levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima (sim, tô imitando o Everaldo Marques no Super Bowl LI). Essa foi apenas mais uma baixa, de tantas que já sofremos e ainda vamos sofrer. É o ciclo da vida! O que realmente importa é o que se faz após sofrer a baixa. Que sigamos em frente, sabendo que o Sport é maior que tudo e que todos! #PST

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