Cine HTE: Hooligans

Na última quinta-feira, durante a partida válida pelas oitavas de final da Copa do Brasil entre Grêmio e Santos no Rio Grande do Sul, tivemos lamentáveis manifestações racistas de parte da torcida gremista. O cinema esportivo é rico de filmes sobre o tema, com películas como Duelo de Titãs, Invictus, Estrada para a Glória, dentre outros títulos. Mas para refletir um pouco sobre esse caso, precisamos pensar um pouco sob a ótica do fanatismo e a violência gerada por ele (e o racismo é uma violência das mais cruéis que existe). Nesse caso, o filme Hooligans (Green Street Hooligans; 2005) nos fornece alguns elementos interessantes para essa análise.
Antes de falarmos sobre o filme em si, é válido gastar algumas linhas sobre o ocorrido na Arena Grêmio. As imagens da ESPN Brasil conseguiram flagrar três torcedores imitando sons de macaco para o goleiro Aranha, do Santos. Também foi muito bem flagrada uma menina gritando duas vezes a palavra macaco em direção ao arqueiro. Quem quiser mais detalhes do caso pode conferir na ótima coluna do Renan Thierre aqui no HTE Sports. Mas nessas imagens, duas coisas impressionam bem: O fato de haver um negro ao lado dos torcedores imitando os sons de macaco e a indiferença das pessoas ao lado da menina quando a mesma berrou para o goleiro. Sinal de que, pelo menos em estádios de futebol, perdeu-se a referência do certo e do errado, da educação e do respeito. Martin Luther King Jr, grande ativista do combate ao racismo nos EUA, dizia: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons”. Ele estava certo. Quando nos silenciamos com algo tão estúpido que acontece ao nosso lado, é sinal que estamos perdendo, por muito, essa batalha.
Voltando ao filme, Hooligans, como dito algumas linhas acima, traz uma abordagem interessante e atual sobre o fanatismo e o que ele causa na relação do torcedor com o clube. O filme conta a história de Matt Buckner, estudante de jornalismo que é expulso do seu curso em Harvard ao acobertar o consumo de drogas de seu companheiro de quarto e vai para a Inglaterra encontrar com sua irmã. Chegando lá, por intermédio de seu cunhado, conhece Pete Dunham, líder da torcida organizada do West Ham United, a GSE. No convívio com Pete, Matt torna-se membro do grupo de torcedores que vão ao estádio e depois partem para brigar com torcedores rivais, unicamente por torcerem por agremiações diferentes. Todos da torcida mostram que são consumidos pelo fanatismo. E, diferente do que muita gente pensa, o filme mostra que o fanatismo não discrimina a classe social e o grau de escolaridade. Pete é professor de história e os outros membros da torcida têm trabalhadores de todas as áreas, incluindo piloto de avião. Fora do ambiente “futebol”, vemos essas pessoas bem educadas, como mostra a cena em que Pete e Matt estão no metrô e gentilmente cedem seu lugar para uma mulher sentar (aqui no Brasil, por exemplo, nem os lugares reservados para idosos e gestantes são respeitados). Enfim, fora do futebol, são pessoas normais, trabalhadores e educados. Quando fanatismo entra, são irracionais, vândalos e capazes de qualquer violência que se possa pensar.
É difícil de imaginar que um professor de história de escola infantil vá a um jogo de futebol unicamente para arrumar confusão. Assim como também não conseguimos pensar que uma mulher jovem, que trabalha com atendimento ao público em clínica odontológica e aparentemente que tenha boa formação educacional passe no meio da rua e xingue alguém de macaco. Nessa linha, vemos que o fanatismo não escolhe lugar: ele surge pela falta de discernimento e acredita em uma ideia fixa. Além disso, não consegue estabelecer parâmetros lógicos de raciocínio. O fanático, por alimentar uma ideia fixa, não se permite sequer cogitar a possibilidade de estar errado. Assim, se faz de surdo e cego para tudo o que não provém do seu foco idealístico. Carl Sagan, conceituado cientista do século XX, em seu livro “Bilhões e Bilhões” associou a relação fanática existente entre uma pessoa comum e time esportivo como sendo o reflexo do instinto caçador que o ser humano ainda possui, onde fazemos uma associação com nosso time do coração com a relação de caça e presa e, ao acompanhar os jogos no estádio ou pela TV, somos levados do êxtase ao desespero dependendo do resultado do jogo.
O filósofo e escritor francês do século XVII Denis Diderot dizia que “Do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo”. De fato, não há. Que o digam os torcedores do Grêmio, que agrediram o goleiro santista unicamente pelo fato de o placar ser desfavorável. Isolados, andando na rua, não praticariam tal ato. Mas em bando, cegos pelo fanatismo, perdem a racionalidade e agem com ignorância.  Voltaire, filósofo iluminista do mesmo século complementou: “Há fanáticos de sangue frio: são os juízes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um cérebro a doença é quase incurável”.  É difícil de discordar vendo o que o fanatismo, não só por times de futebol que nem existia na época dos dois citados, mas político, ideológico e religioso causa para a sociedade, retratado tão claramente em Hooligans.
Infelizmente, o fanatismo ainda é um mal que acomete o mundo, seja de que ordem for. O caso do Aranha não será o último que iremos ver, tanto no Brasil como no mundo. O cenário retratado no filme Hooligans será visto muito mais vezes. Mudam-se os atores, os lugares, mas o enredo permanecerá o mesmo enquanto o fanatismo não for vencido. Mas essa é uma batalha que está bem longe de terminar.
Ficha Técnica
Título Original: Green Street Hooligans
Tempo de duração: 109 min
Ano de lançamento (EUA): 2005
Direção: Lexi Alexander
Roteiro: Lexi Alexander, Dougie Brimson
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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