Cine HTE Especial: Invictus

No dia 20 de novembro no Brasil é celebrado o dia da Consciência Negra. Data que coincide com a morte de Zumbi dos Palmares é uma forma de lembrar-se da luta contra a escravidão travada pelos negros terminada há cerca de dois séculos. Mesmo após todo esse tempo, vimos nesse ano diversos casos escabrosos de discriminação no esporte nacional e mundial. Na Espanha assistimos a torcida do Villareal jogar bananas para o lateral direito do Barcelona e da seleção brasileira Daniel Alves. Nos EUA, acompanhamos o caso de Donald Sterling, ex-dono dos Clippers, eliminado do cargo pela NBA após o vazamento de comentários racistas que fez em conversa com sua namorada. E no Brasil tivemos o caso Aranha, no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil entre Grêmio e Santos. Aqui na seção CINE HTE, falamos desse tema sob a ótica do fanatismo, com o filme Hooligans, e depois do ponto de vista histórico, com o filme 42: A história de uma lenda. Hoje, em respeito a esse dia, faremos uma edição especial com o filme Invictus, que conta a história de uma das maiorias vitórias do combate ao racismo do século XX.
Em minha opinião, a história de Nelson Mandela é a mais emblemática da luta contra o racismo. Mandela passou 27 anos na prisão, condenado por um dos regimes mais asquerosos produzidos pelo homem, junto com o nazismo e fascismo europeu, o Apartheid. Após sua libertação em 1990, conduziu a África do Sul a democratização e a eliminação das políticas segregacionalistas, recebendo o Prêmio Nobel da Paz em 1993 e tornando-se o primeiro presidente eleito democraticamente em 1994. No ano seguinte, a África do Sul sediaria a Copa do Mundo de Rúgbi, um dos eventos esportivos mais assistidos do mundo, junto com a Copa do Mundo de Futebol, as Olimpíadas e o SuperBowl. E a película mostra como Mandela, interpretado por Morgan Freeman, usou o evento em prol da união do povo sul africano na reconstrução da nação.
No começo do filme somos convidados a assistir o método utilizado pelo então presidente para vencer a discriminação: Perdoar o passado, trabalhar em união pelo futuro, respeitar a cultura de cada etnia e encerrar o ciclo do medo. Mandela sabia que não poderia conduzir uma nação com o sentimento de vingança. Por esse motivo, colocava ao seu lado antigos opressores, como antigos membros da polícia branca para serem seus guarda-costas. Mostra para os membros do seu partido que sem o apoio dos afrikaneers (população descendente de holandeses que dominaram o país durante o Apartheid) seu governo não poderia ser bem-sucedido em sua missão e que precisa encerrar o ciclo do medo. Medo da população de etnia negra dos brancos e vice-versa.
Um dos momentos que isso fica claro é na discussão sobre a manutenção no nome de SpringBocks do time nacional de rúgbi, um ano antes do início da Copa do Mundo. Enquanto seus correligionários eram veementes a favor da alteração do nome que era um dos símbolos da África do Sul segregada, Mandela pedia uma reflexão utilizando como exemplo o tempo em que passou encarcerado. Dizia que agora, não era mais uma questão de “nós contra eles” e sim de união em torno de um ideal e que, para que a união fosse completa, era preciso respeitar os símbolos valiosos de sua cultura e manter SpringBocks como identidade da seleção nacional para que os agora ex-inimigos se surpreendessem com seu perdão e compaixão e vissem que não tinham o que temer, encerrando esse ciclo de medo e começando um novo ciclo.
A partir desse momento começa a integração do povo em torno de uma seleção. O slogan “Um time, uma nação” ganha força na sociedade. Os negros, que odiavam o rúgbi pelo que representavam na época do Apartheid e torciam contra a seleção nacional, com uma boa dose de trabalho de marketing conduzido por Mandela e o presidente da federação de rúgbi, passaram a torcer a favor. O capitão da seleção François Piennar, interpretado por Matt Damon, passa a ter uma relação mais próxima com Nelson Mandela e lidera a mudança de mentalidade dos demais jogadores.
Na grande final, duas cenas são marcantes: O coro “Nelson!!! Nelson!!!” entoado em uníssono pelos 62 mil espectadores presentes para acompanhar o duelo da seleção local contra a poderosa Nova Zelândia no momento em que Mandela adentra o gramado para cumprimentar os jogadores, um por um, vestido com a camisa e boné da seleção, e o momento da entrega do troféu ao capitão Piennar em que Mandela diz “Obrigado pelo que você fez pelo país”, ao passo que Piennar o responde: “Não, obrigado ao senhor pelo que fez pelo nosso país”. Quem achar o filme irreal demais convido a ler o livro “Invictus: Conquistando o inimigo” de John Carlin ou assistir o documentário produzido pela ESPN que contam a mesma história.
Há uma frase que sempre circula na internet nesse dia de autoria de Morgan Freeman que diz “O dia que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece”. Era essa consciência que Mandela buscou implantar tendo o rúgbi como uma de suas ferramentas. Afinal, como ele mesmo disse em uma oportunidade, “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”.
Ficha Técnica
Título Original: Invictus
Tempo de duração: 134 min
Ano de lançamento (EUA): 2009
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Anthony Peckham (screenplay), John Carlin (book)
OBS: A seção Cine HTE não tem a pretensão de fazer uma crítica em si dos filmes, mas relatar e refletir sobre os ensinamentos que são abordados na história, seja baseado em fatos reais ou mera ficção.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

%d blogueiros gostam disto: