Entrevista com Raiam dos Santos

Raiam dos Santos, jogador de futebol americano e economista. Raiam jogou futebol (soccer) como lateral esquerdo nas categorias de base de Olaria e Flamengo. Jogou junto a Thiago Alcântara, inclusive. Iniciou no futebol americano quando foi aos Estados Unidos. Jogou no San Diego Cavers e no Pennsylvania Quackers. Nos Quackers, ganhou em 2010 o prêmio All Ivy, dedicado aos atletas com melhor desempenho acadêmico dos EUA. Além dos prêmios de melhor kicker da Ivy League em 2008, 2009 e 2010. Atualmente, joga na Seleção Brasileira de FA, convocado desde 2012; também é kicker do Flamengo FA.

O Brasil conseguiu uma vaga inédita para o Mundial que será disputado em Ohio. Quais são as expectativas reais da seleção?

Há 3 anos quando o projeto da Seleção começou e a CBFA marcou o primeiro amistoso contra o Chile, nem o mais otimista dos jogadores esperava que tínhamos qualidade para brigar frente a frente com as melhores seleções do nosso esporte.
Na nossa preparação para a batalha de Janeiro, esperávamos que o Panamá seria um bicho de sete cabeças já que eles têm pelo menos 100 anos a mais de tradição no esporte do que o Brasil.
Acho que cometemos o erro de pensar pequeno demais sobre nosso próprio potencial e essa vitoria em territorio hostil sobre o Panamá nos deixou mais confiantes do que nunca. O céu é o limite.

Como o sucesso de Cairo Santos poderia ser aproveitado para o desenvolvimento do esporte no país? Cairo joga na mesma posição que você, kicker, então, qual sua opinião quanto a qualidade dele?

O Cairo Santos é um herói para esse país. As pessoas menosprezam o quão difícil é conseguir chegar a NFL e o quão difícil é a vida de atletas brasileiros que se aventuram no futebol americano lá fora.  O futebol americano não é que nem o soccer, onde o jogador que não dá certo em uma liga pode viajar o mundo e tentar a sorte em ligas secundarias da Europa, Ásia e da América do Norte. Na posição do Cairo, existem apenas 32 empregos no mundo. Não há kicker reserva e não há ligas alternativas ao redor do mundo. Ou ele consegue um dos 32 empregos ou vai se virar para arrumar um emprego em loja de shopping ou em escritorio.

Imagina a briga de cachorro grande que deve ser conseguir viver de futebol americano? Você tem que ser fora de serie para chegar aonde o Cairo chegou.
O que eu mais respeito no Cairo é o seu caráter low-profile e sua frieza.
Acho que a frieza é o que diferencia um kicker mediano de um kicker padrão NFL. Diria que 90% do valor da posição vem da cabeça do jogador, chutar qualquer um consegue.  Eu mesmo reconheço que o que me limitou a alçar vôos mais altos no futebol americano foi o fator psicológico.
Lembro que no começo da temporada, o Cairo tinha um dos piores aproveitamentos em field goals entre os kickers da liga e a mídia local já clamava por um nome mais experiente para a posição dele no Kansas City Chiefs. Ele não deu ouvidos à opinião externa, confiou no próprio taco e teve um excelente desempenho dali pra frente.

O ator Alexandre Frota, em determinado momento, chegou a jogar no Corinthians Steamrollers. Como você acredita que esse tipo de participação pode beneficiar o esporte?

O Frota continua firme e forte como atleta do Corinthians Steamrollers, do alto de seus 50 e poucos anos.
Vejo que muita gente o critica, mas ninguém é criticado por ser ruim. Se ele tem essa quantidade de haters, é que ele está fazendo alguma coisa certa.
E sabe qual é a coisa certa que ele faz? Ele divulga o futebol americano nas grandes midias e levanta a bandeira do esporte para um público leigo. Ser o embaixador do esporte como o Frota consegue ser é o sonho de 9 entre 10 pessoas que o criticam.

Qual a maior dificuldade encontrada para a prática de FA no Brasil? E como essas dificuldades podem ser sanadas?

Acredito que a maior dificuldade é aceitar que o futebol americano no Brasil é um esporte amador.
Vejo muita gente deslumbrada dentro do meio do futebol americano nacional. Pessoas que abrem mão de carreiras, oportunidades de estudo e apostam todas as fichas no futebol americano sem medir os reais riscos dessas escolhas.
Conheço muitos atletas que chegaram à Seleção Brasileira de FA que têm dificuldade para terminar os estudos e outros que não conseguem emprego justamente por causa do fator futebol americano. É quase impossível dividir a atenção entre o trabalho, o estudo e o esporte, especialmente no Brasil onde não existe a estrutura de bolsa esportivas e de alumni networking da NCAA.
Esses dias li o caso do ex-running back do Brown Spiders e da Seleção Fred Taurus. O Taurus era um excelente jogador e teve uma lesão grave no joelho jogando futebol americano. Ele não tinha plano de saúde e nem dinheiro para bancar o caro procedimento cirúrgico em seu joelho e está há anos sem trabalhar e exercer sua profissão de professor de spinning.

Praticamente todo mundo crucificou a chamada dos Seahawks na jogada derradeira do SB 49, que resultou em uma interceptação. A chamada foi realmente equivocada, ou valia a pena arriscar uma jogada inesperada para a defesa naquele momento do jogo?

O futebol americano é um jogo de 4 quartos e 60 minutos de bola rolando.
A pessoa que diz que o jogo foi perdido naquela jogada e que o técnico do Seahawks foi o grande culpado pela derrota mostra que não entende nada do esporte.

Temos sempre a tendência de querer eleger o melhor da história em algum esporte. Sabendo disso, para você, qual o lugar de Tom Brady? E quem seria, para você, o melhor da história?

Nasci em 1990 e nunca vi nem Joe Montana nem Terry Bradshaw jogar. Desde que comecei a acompanhar o futebol americano na temporada 2005 da NFL, o Tom Brady SEMPRE chegou nos playoffs e sempre deu trabalho.
Podem falar que o Peyton Manning é melhor porque lançou para mais jardas e marcou mais touchdowns. Mas o que realmente importa no esporte são as vitórias, são os títulos. Com dois vice-campeonatos e quatro anéis de campeão e dois vice campeonatos, acho difícil competirem com o Tom Brady.

 Sei que estamos ainda no início da off-season, mas você pensa que algum time que larga na frente para buscar o título no próximo ano? Se sim, por qual motivo?

Vou guardar essa resposta para o período pós free-agency e pós draft. Acho quase impossível fazer essa previsão sem saber do capital humano que cada time terá na temporada 2015-2016. Se tiver mesmo que escolher um time, escolheria o meu San Diego Chargers!

Na última temporada ouvimos alguma vezes que o Brasil é visto com bons olhos para receber um jogo de pré-temporada da NFL. Acha isso possível? Quais estádios ou arenas seriam as mais indicadas para um evento desse porte?

Sim. Acredito que haja uma possibilidade real disso acontecer.
Acho que, por incrível que pareça, o Maracanã não seria uma boa escolha para um jogo desse porte. Em dezembro de 2014, tivemos um amistoso da Seleção Brasileira de FA contra a Seleção Carioca no Rio de Janeiro. Apesar de haver sido o jogo de mais alto nível técnico na história desse país, apareceram menos de 600 pessoas na arquibancada.
Acredito que, por ser o principal mercado das transmissões da NFL na ESPN e por sua posição centralizada como um hub de transportes aéreo e rodoviario, São Paulo e a Arena Corinthians largariam na frente para receber o primeiro jogo da NFL no Brasil.
Uma coisa que pode adiar esse sonho é a questão macroeconômica.
Um ingresso para um jogo da NFL custa, em média US$150. Com o cambio a R$3,00 acho muito difícil encontrar 50mil brasileiros que estariam dispostos a pagar R$450 reais para assistir um jogo de futebol americano em Itaquera. Como todo bom manager, os líderes da NFL querem saber de dinheiro. Acho que para eles, um jogo no Brasil ainda não é um negocio lucrativo.

O que faz da liga ser uma das mais equilibradas do mundo? Divisão de cotas de TV, tetos salariais ou método de rankeamento do draft?

Você já respondeu a sua propria pergunta. No draft, os últimos são os primeiros e fica muito difícil manter um time vencedor por varios anos seguidos por causa do teto salarial e da free agency. Quando comecei a seguir o futebol americano, San Francisco 49ers e New Orleans Saints eram os sacos de pancadas da liga. De repente, em questão de 2 ou 3 anos, conseguiram montar equipes excelentes e chegaram ao topo.

Raiam, você comentou para o Esporte Interativo e ESPN. Após essa experiência, qual sua opinião quanto ao papel da televisão na introdução do FA no Brasil? E qual a importância daqueles que trabalham indiretamente, como narradores e comentaristas, com esse esporte?

Mais uma vez volta aquela discussão do Alexandre Frota. Quando abro o Facebook ou o Twitter, leio milhares e milhares de críticas a comentarista X e comentarista Y dizendo que eles não sabem do esporte ou que favorecem a algum time em suas transmissões. Diria que 99% desses críticos queriam estar no lugar deles comentando o esporte que amam na TV.
São 60 minutos de bola rolando para três horas e meia de transmissão, a grande questão é o que fazer com as outras duas horas e meia?
Respeito muito o trabalho de todos os comentaristas e narradores de futebol americano da TV pois eles têm uma tarefa muito difícil: além de narrar e comentar jogos, precisam ser tradutores simultaneos, professores, historiadores, pesquisadores, experts em mídias sociais, relações públicas, diplomatas, políticos, apresentadores, técnicos de futebol americano e comediantes de standup. Tudo isso sem perder a compostura e o sorriso diante da câmera.

Como economista, qual sua visão quanto ao fator econômico do Futebol Americano no Brasil, em relação aos patrocínios, salários dos atletas e cotas de TV? E, num futuro, você espera que o FA possa alcançar o futebol na questão financeira?

Tenho duas respostas: a resposta de amante de futebol americano e a de economista pé-no-chão.
Como economista, acredito que o futebol americano jogado aqui no Brasil não tem muito futuro por causa de um simples principio da contabilidade: os custos são bem maiores que as receitas.
Como bancar a viagem de um plantel de 60 jogadores de futebol americano de Curitiba até João Pessoa. É só conseguir patrocinio? Bom, então como convencer a uma grande empresa a doar R$100mil reais para que um time faça um jogo de 3 horas diante de 200 ou 300 pessoas numa várzea e sem cobertura nenhuma de mídia?
Acho que as pessoas precisam de um pouco mais de pé no chão.
Para você ter uma idéia, nem no futebol soccer a conta bate! Vejo equipes de soccer com milhões e milhões de torcedores que têm dificuldade de colocar 2 mil pessoas num estadio e terminam a temporada no vermelho porque as despesas com salarios, com logística e com manutenção de estadios são infinitamente maiores que as receitas de patrocinio e bilheteria.

Muito obrigado, Raiam, pela entrevista ao HTE Sports. Sucesso para nossa seleção brasileira de futebol americano no Mundial. E sucesso a você como jogador do Flamengo FA.

Muito obrigado! Vou aproveitar a oportunidade para divulgar meu blog de economia Mundo Raiam (www. mundoraiam.com) e também o curso online COMO GANHAR BOLSA PARA UNIVERSIDADES AMERICANAS no Udemy, onde compartilho minhas experiencias como estudante e atleta nos Estados Unidos e mostro o caminho das pedras para estudantes brasileiros conquistarem bolsas de estudos nas melhores universidades do mundo. (https://www.udemy.com/estudenoseua/)
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