Memória Olímpica #4 – Da prata ao ouro

“Marcelo Negrããããããoooooo…… Somos ouro!!!!”. Essa narração do saudoso Luciano do Valle foi uma mais marcantes do esporte nacional na década de 90 e de sua carreira. Considero Luciano o maior nome da midia esportiva que minha geração pode acompanhar. Acompanhei em muitos domingos o Show do Esporte da TV Bandeirantes, onde Luciano cansou de apoiar as mais diversas modalidades esportivas. E com certeza, seu trabalho teve influencia nessa conquista.
O voleibol começou a ser notado no Brasil no começo dos anos 80, com o vice-campeonato mundial em 82 e o título dos Jogos Pan-Americanos em 83. A seleção seguiu para os jogos de Los Angeles em 84 já sendo considerada uma das equipes promissoras e conquistou a inédita medalha de prata. Comanda da pelo técnico Bebeto de Freitas e contando com jogadores como Bernardinho (hoje técnico da seleção), William, Montanaro, Bernard, Amauri entre outros, ficou conhecida como a Geração de Prata e começou a alavancar o interesse do público e da mídia para o esporte. Grandes empresas, como Pirelli e Banespa começaram a patrocinar times e o volei ganhava força no Brasil.
E no trabalho da mídia que entra Luciano do Valle. Em entrevista ao programa Bola da Vez da ESPN Brasil, Luciano contou que, durante as Olimpíadas de Munique em 76 ficou abismado com a baixa quantidade de medalhas da delegação brasileira. A partir de então, decidiu que iria buscar novas modalidades para trazer ao público e ajudar o Brasil a ser tornar uma potência olímpica. E o voleibol tinha tudo o que ele precisava. Luciano “usou” o talento dos jogadores e promoveu diversos eventos, como o monumental jogo entre a seleção brasileira e a seleção soviética, em 1983, no estádio do Maracanã. Evento esse que foi ignorado pelo grupo de comunicação concorrente, que não deu uma linha em seus jornais e ignoraram em seus programas esportivos, mas foi um sucesso. Com o apoio da mídia, o volei começou a ganhar força.
Com o apoio de Luciano do Valle, começou a transformação da prata em ouro, que levaria 8 anos. Em Seul-88, um quarto lugar, mas que já mostrava que o Brasil tinha entrado no mundo do volei. Para Barcelona 92, o comando técnico da seleção seria de José Roberto Guimarães (hoje técnico da seleação feminina do Brasil). Zé Roberto sabia que para dar esse salto, era necessário algo a mais a seleção. O Brasil precisava reinventar o volei, ser mais criativo taticamente e perfeito tecnicamente. Marcelo Negrão e Giovanne, pontas dessa seleção, sempre comentaram o quanto que o treinador insistia nos treinos de recepção e defesa. Era fundamental que esse fundamento fosse bem executado pelos jogadores brasileiros. Para distribuir as jogadas, o levantador Maurício, considerado por alguns o melhor de todos os tempos, estava em fase fantástica. Tinha um reflexo fantástico que o permitia olhar todo o posicionamento adversário antes de colocar a bola na mão dos atacantes. Mas, o principal, foi a mudança tática promovida por Zé Roberto. Para vencer os gigantes europeus, era necessário velocidade no ataque. Por isso, o Brasil mandava a quadra somente um central e abusava das jogadas atrás da linha de 3 metros.
A campanha em Barcelona foi irretocável. Cinco jogos e cinco vitórias na fase de grupos com apenas 1 set perdido, contra Cuba, Comunidade dos Estados independentes (Ex-União Soviética), Holanda, Coréia do Sul e Argélia. 3 x 0 diante do Japão nas quartas e 3 x 1 sobre os EUA nas semi-finais colocaram o Brasil novamente em uma final olímpica, dessa vez, contra a Holanda. E o ouro veio com um 3 x 0, sendo o ponto final em um ace de Marcelo Negrão, narrado de maneira brilhante pelo Luciano do Vôlei (apelido que Luciano merecidamente ganhou durante a trajetória  do esporte).
Desde então, o voleibol ganhou o status de segundo esporte nacional, atrás apenas do futebol. A seleção masculina voltaria a vencer os jogos em Atenas-2004 e se tornaria a maior vencedora de Ligas Mundiais, com 9 (indo na busca da 10ª esse ano, com a fase final a ser disputada no Rio de Janeiro). Um legado extraordinário dessa trajetória olímpica do esporte.
Essa história me faz imaginar o que poderia ocorrer hoje com outras modalidades já vencedoras, como o handebol feminino, atual campeão mundial com a melhor jogadora do mundo, se houvesse na mídia esportiva mais pessoas como o Luciano do Valle, que não apenas se utilizam do esporte, mas investissem e apoiassem de verdade as modalidades. Que não fizessem de seus programas na televisão meros entretenimentos baratos, onde um precisa falar mais alto que o outro em discussões que não levam a lugar nenhum, mas procurassem ocupar os espaços com transmissões e notícias de eventos esportivos. Esse é o legado que os Jogos do Rio-2016 poderiam deixar para o esporte nacional.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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