Reconto HTE #2 – Felix, Barbosa e a ingrata função de goleiro

Onde o goleiro pisa, não nasce nem grama. Esse ditado já foi muito famoso no mundo do futebol. A função de goleiro é solicitaria e, em muitas oportunidades, injusta. A solidão já começa pelo fato de ser o único jogador a se vestir diferente, usar as mãos e representar o anticlímax do esporte. Quando seu time marca um gol, ninguém o está olhando. Quando sofre, é o primeiro a ser analisado pelos torcedores. Por isso se torna injusta.

Antes do “Sai que sua Taffarel”, do São Marcos e do Mito Rogério Ceni, para ficar em alguns exemplos mais recentes, pouco era o protagonismo e valorização dos goleiros nas vitórias e muito as culpas nas derrotas. Dois goleiros da história da seleção brasileira carregaram essa marca durante sua vida: Barbosa, arqueiro da seleção em 1950, e Felix, camisa 1 da seleção de 1970. Os dois viveram suas vidas com marcas que nem o tempo foi capaz de curar.

Na primeira Copa do Mundo disputada no Brasil, o país levantou o Gigante do Maracanã. Na primeira Copa disputada pós segunda guerra mundial, tinha uma geração muito talentosa o que fazia todos acreditarem que seria o ano do primeiro título mundial, em casa. Na jogo final, contra o Uruguai, a taça Jules Rimet seria brasileira com apenas um empate. O clima de euforia tomava conta do país antes do jogo. Não há registro oficial, mas a história conta que naquele dia mais de 200 mil pessoas estavam no estádio carioca. O Brasil saiu na frente, o que aumentou ainda mais a certeza do título. Porém, o Uruguai virou o jogo que seria lembrando para sempre como Maracanazzo. E, como em toda derrota, era necessário achar um vilão. Coube ao goleiro Barbosa esse papel.

Sempre que revejo os gols, reprisados inúmeras vezes na televisão brasileira, principalmente antes de um jogo da seleção brasileira contra a uruguaia, tenho a certeza que Barbosa não falhou em nenhum dos gols. Por que ninguém fala do espaço que os zagueiros deram para os atacantes, dos gols perdidos na mesma decisão. Era mais simples condenar Barbosa, que viveu o resto de sua vida com o estigma de que foi o culpado do Brasil não ter conquistado uma Copa do Mundo em sua casa (até 2014, pelo menos, por razões óbvias que não irei comentar nessa história).

Felix, mesmo com o tri-campeonato da seleção brasileira no México, fazendo parte da, talvez, maior seleção de todos os tempos, não foi agraciado com o respeito que merecia. Uma das frases mais ditas sobre essa seleção foi que “Venceu, apesar do Felix”, como se o goleiro não tivesse nenhum mérito de estar ali. Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Jairzinho, Pelé e Tostão (escalação da final, contra a Itália) ganharam todos status de craques incontestáveis (e com razão), porém, se por algum motivo a seleção não tivesse sucesso, o culpado seria Felix.

O Brasil venceu os sete jogos da Copa. Os que dizem que o Brasil conquistou a Copa “apesar do Felix” baseiam-se no fato que, tirando as quartas contra a Inglaterra, em todos os jogos a seleção levou gol. Mas, se analisarmos, nenhum gol sofrido foi falha de Felix. Pelo contrário, no jogo mais apertado, nas quartas de final contra os ingleses, Felix fez defesas dificílimas, como a cabeçada a queima-roupa de Lee, pouco depois daquele lance memorável de Pelé x Gordon Banks.

Felix e Barbosa sofreram da síndrome dos comentaristas, profissionais e amadores, que consideram imperdoável os gols sofridos pelos goleiros, com ou sem falha, mas tem uma memória seletiva nos lances dos atacantes, por exemplo. Na final de 1970, por exemplo, Pelé cobrou uma falta na arquibancada, já no segundo tempo. Mas o primeiro gol e o passe para Carlos Alberto Torres fazer o quarto são os únicos momentos recordados do Rei. Ou seja, a falha do ataque terá sempre um peso menor na memória e nos diagnósticos populares de heróis e vilões do futebol.

Infelizmente ambos os goleiros faleceram com a pecha de vilões. Carregaram por toda a vida o peso de não terem sido considerados bons o suficiente. Foram injustiçados. Ainda veremos muitas vezes os gols do Uruguai em 50 e culpa recaindo sobre Barbosa. Terão muitos analistas que dirão com a propriedade que lhes compete que a conquista de 70 veio apesar do Felix. Dois goleiros símbolos de uma era que a função era a mais desvalorizada do futebol.

Felizmente, aos poucos, isso vem mudando. Taffarel, Marcos, Rogério Ceni, Dida e tantos outros goleiros que tiveram a oportunidade de viver uma época mais recente mostraram que o goleiro pode ser sim o protagonista de grandes conquistas e nem sempre serão os vilões das derrotas, mesmo quando há uma falha. Marcos, no mundial contra o Manchester United é um exemplo claro disso. Quem sabe o exemplo desses goleiros possa se perpetuar e que os que comentaria de futebol da época de Felix e Barbosa não o vejam mais como vilões e sim com o respeito que merecem, pelo serviço na seleção nas Copas citadas e por suas longas e vitoriosas carreiras em seus clubes. Já dizia um antigo preparador de goleiros que tive quando fazia essa função nas várzeas durante minha infância e adolescência, goleiro também é gente.

A SÉRIE

A série RECONTO HTE é destinada a lembrar grandes momentos, histórias e personagens do esporte brasileiro e mundial. Ao longo do tempo, iremos trazer aqui grandes rivalidades, confrontos marcantes e tudo que nos fez um dia nos apaixonarmos por esporte. Afinal, aqui no HTE Sports, #TorcerÉPouco.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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