Reconto HTE #5 – A política mundial e os Jogos Olímpicos

Há exatos 26 anos, no dia 20 de janeiro de 1980 o presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter anunciava, por meio de pronunciamento oficial, que os atletas de seu país não participariam dos Jogos Olímpicos de Moscou, no mesmo ano, como forma de represália a invasão soviética no Afeganistão. Medida compartilhada por diversos outros países do bloco capitalista, entre eles a Alemanha Ocidental e o Japão. Era o momento que o mundo vivia sob a influência das duas grandes superpotências que dominavam o cenário político e ideológico internacional após a segunda guerra mundial. Enquanto o bloco capitalista era liderado pelos EUA, a União Soviética liderava o bloco socialista / comunista.

Não era novidade a política internacional interferir no maior evento esportivo do mundo. Nos Jogos Olímpicos de 1936, em Munique, Adolf Hitler queria mostrar ao mundo a superioridade da raça ariana. Foi obrigado a assistir Jesse Owens, corredor afro americano, subir quatro vezes ao local mais alto do pódio. A já citada segunda guerra mundial obrigou o cancelamento das edições de 1940 e 1944. A África do Sul foi banida do evento por conta do regime do Apartheid, que vigorou em praticamente todo século XX, terminando somente com a libertação de Nelson Mandela e sua eleição para a presidência do país. Em 1976, 26 países africanos boicotaram o evento de Montreal por conta da participação da Nova Zelândia, que realizou um jogo de rúgbi na África do Sul com o regime citado. E, em 1984, foi a vez dos países soviéticos e outros do bloco socialista / comunista dar o troco nos EUA, alegando falta de segurança para os atletas.

Com razões nem sempre esportivas, essas e outras edições dos Jogos Olímpicos sofreram baixas significativas, fazendo alguns resultados de medalhas estarem, por vezes, maquiados por conta da falta de atletas de nível técnico superior. Razões que foram contra o lema do espírito olímpico, definido pelo Barão de Cobertain, criador da edição moderna dos Jogos, como sendo “um caminho para os países do mundo se aproximar”. Ao longo do tempo, o evento foi tornando-se um balcão de negócios e influências para que os políticos fizessem suas aparições publicitárias.

Na primeira Olimpíada citada nesse texto, à de 1980 em Moscou, o boicote dos EUA tinha um sentido muito claro: Como viram o prejuízo financeiro ocorrido na competição em Montreal, quatro anos antes (Estima-se que a dívida foi de US$ 1,5 bilhão, com pagamento realizado ao longo de 30 anos), a idéia de Jimmy Carter era aproveitar a oportunidade para causar o mesmo prejuízo no rival ideológico. A invasão ao Afeganistão foi a desculpa utilizada e nada mais que isso. Por ironia, a delegação afegã estava presente nos jogos, com todos seus atletas qualificados.

A organização soviética, no entanto, deu um show na organização. Impecável na condução do evento, sem problemas de segurança para nenhum atleta, teve em seu mascote o maior símbolo dos Jogos. Misha, o simpático ursinho, no encerramento da edição chorou pela não presença de inúmeros esportistas, impedidos pela política de seus países, e não por sua competência e esportividade. Contrário do realizado quatro anos depois, em Los Angeles, quando os americanos praticamente ignoraram o fato da União Soviética e seus aliados não terem enviado delegações.

A questão não é defender o modelo soviético, o comunismo e atacar o capitalismo. Muito menos defender a ocupação da União Soviética ao Afeganistão, durante a Guerra Fria. Mas a hipocrisia dos EUA sempre foi uma marca nessa discussão ideológica. Maior potencia financeira nos tempos atuais, o país do Tio Sam tem regras diferentes para suas ocupações e para as ocupações dos outros. Coloca-se como a polícia e centro de moralidade mundial e faz seus parceiros financeiros acatarem suas vontades. Influencia negativamente em áreas que a política ideológica não deveria entrar como o esporte.

Como o espírito de Barão de Coubertain dizia, o esporte deveria ser a ferramenta para aproximar o mundo, aproximar as pessoas, gerar uma maior integração humana. Os Jogos nasceram para mostrar quem é o mais hábil em determinada modalidade, seja corrida, natação, lutas ou esportes coletivos. Desde os primórdios, na Grécia, era mostrar quem era o melhor atleta, não qual região tinha a melhor ideologia política.

Hoje ainda vemos casos que a política está no meio, prejudicando o nascimento de atletas que poderiam ser referências mundiais, como nos casos da Coréia do Norte, por exemplo. Sim, seus comandantes não são santos. O uso de armas nucleares deve ser proibido não somente para eles, mas para todas as nações do mundo. Mas não se pode condenar os atletas do por conta da ideologia política de seus comandantes. E se a ação de Jimmy Carter mostrou, é que isso tem pouco efeito prático. Pelo contrário, foi muito mais bonito as duas Coréias entrarem sob uma mesma bandeira nos Jogos Olímpicos de Sidney que qualquer ação de boicote. Foi muito mais arrepiante a platéia em Barcelona/92 cantando em uníssono uma música africana denominada Deus abençoe a África, para Nelson Mandela que, recém-libertado, ocupava um dos lugares nas tribunas na abertura dos Jogos que qualquer retirada de delegação dos jogos. Ações positivas, que mostram a integração, sempre tiveram maior impacto que as negativas. O balcão político que influência nos Jogos Olímpicos precisa ser encerrado, para que as verdadeiras estrelas sejam os protagonistas do espetáculo.

 A SÉRIE

A série RECONTO HTE é destinada a lembrar grandes momentos, histórias e personagens do esporte brasileiro e mundial. Ao longo do tempo, iremos trazer aqui grandes rivalidades, confrontos marcantes e tudo que nos fez um dia nos apaixonarmos por esporte. Afinal, aqui no HTE Sports, #TorcerÉPouco.

Leia Também os outros posts da série

#4 – The Flu Game

#3 – A redenção de Peyton Manning

#2 – Felix, Barbosa e a ingrata função de goleiro

 

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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