Esporte Feminino – Uma reflexão sobre o passado, presente e futuro

Hoje, dia internacional das mulheres, quero propor a você, amigo (a) leitor (a), uma reflexão: Como enxergamos a participação das mulheres no esporte? Ao longo da história, a dificuldade da inserção feminina nos esportes foi grande e ainda está longe de falarmos que temos uma igualdade de valorização e oportunidades.

O preconceito é milenar. Começou como quase tudo na cultura ocidental, na Grécia antiga. Quando iniciaram as competições olímpicas, as mulheres eram impedidas até de assistirem os jogos, sendo condenadas à morte se fosse pegas. Quando Barão de Coubertain deu início a era Moderna dos Jogos, em 1896, as mulheres ainda não tinham vez. Somente em 1900, em Paris, houve a primeira participação feminina. Em 1928, com as primeiras corridas femininas nos Jogos de Amsterdã, com provas de 100 e 800m, o COI quase deu um passo para trás, solicitando o veto da participação das mulheres em Olimpíadas após algumas participantes desmaiarem durante as provas.

Diante desse histórico, podemos ver a dificuldade que foi para o esporte feminino se estabelecer. Hoje, salvo algum engano deste que vos escreve, todos os esportes olímpicos já contemplam as versões masculinas e femininas, quando não são considerados unisex, como o hipismo por exemplo. Na delegação brasileira em Londres-2012, 48% já era do sexo feminino. Mas ainda há um longo caminho a percorrer. A igualdade de oportunidades no esporte está longe de ser uma realidade.

A começar pela dificuldade de se estabelecer, tanto individual quanto coletivamente, em relação à profissionalização. No mesmo esporte, o valor pago para homens é absurdamente maior que o pago para mulheres. Tanto as seleções femininas quanto as esportistas individuais tem mais dificuldades em arrumar patrocinadores. Muito por conta de as televisões, abertas e pagas, terem menos horário em suas grades de programação para esportes femininos que masculinos. Compare, por exemplo, quantos jogos da LBF (Liga de Basquete Feminina) são transmitidos com quantos da NBB (Novo Basquete Brasil), para ficar somente nesse exemplo. Programas de debate então, no Brasil nem pensar. O tal jornalismo esportivo concentra-se praticamente inteiramente no futebol e, vez ou outra, quando ganha a vez outro esporte, os debates são centrados nas versões masculinas do esporte.

Mas as dificuldades não param por aí. Quantas mulheres têm como repórteres, comentaristas ou narradoras. Quase nada em relação aos homens. E a maioria delas está “apenas” como apresentadora. Quando chamadas para a função de comentarista, ficam basicamente a versão feminina dos esportes. Ou Magic Paula não teria capacidade de comentar a NBA? Ana Moser a Super Liga Masculina de Vôlei? Marta a Copa do Mundo de Futebol? Três dos questionamentos para ficar em exemplos de ex-jogadoras (ou em atividade, no caso da Marta), já que temos tantos ex-jogadores como comentaristas de uma modalidade.

Se apertarmos um pouco mais, e for para o corpo técnico então, a coisa fica um pouco mais feia. É extremamente comum vermos um treinador homem para uma equipe feminina. Mas se uma mulher for chamada para treinar uma equipe ou seleção masculina ela é vista quase como uma extraterrestre, tamanha surpresa do público e dos comentaristas. E, caso as mesmas sejam entrevistas, ou seja, realizada alguma matéria nos programas esportivos, dificilmente a questionarão sobre questões técnicas e táticas, concentrando-se os temas em “Como faz no vestiário na hora do banho” e temas correlatos. Por que uma Maria Helena Cardoso, treinadora campeã mundial com a seleção de basquete feminina em 1994, não poderia treinar o time masculino, sendo ela comprovadamente melhor capacitada e com melhor currículo que muitos técnicos que passaram pela seleção? São barreiras que tanto o público, como a mídia impõe, gerando um preconceito tolo.

A mulher que quer se profissionalizar em algum esporte já naturalmente tem muito mais dificuldade de atuar, por questões fisiológicas. Precisam, para ter uma carreira no esporte, desistir ou minimizar os sonhos de uma família com filhos. Precisam vencer uma série de barreiras que as sociedades impõem de que a pratica de determinado esporte lhe tira um pouco da feminilidade. E isso reflete no interesse público pelo esporte e, em conseqüência, em como a mídia e os patrocinadores pensam nessa relação.

Mas, como colocamos no início desse texto, as barreiras estão sendo quebradas. Há 100, era difícil encontrar atletas mulheres de qualquer modalidade esportiva. Hoje, já essa barreira não existe mais. Sei que meu desejo é praticamente utópico, mas com mais de 10 canais de esportes na TV fechada, acho que teríamos espaço para programas que debatem as ligas femininas com a mesma ênfase que, por exemplo, ligas como a NBA e NFL são analisadas, com um programa semanal de 30 minutos. Que os programas que se dizem esportivos (mas na verdade falam 98% do tempo sobre futebol) dediquem mais tempo para falar de resultados, divulgar competições como Taça Brasil de Atletismo, Taça Brasil de Natação. Que chamem mulheres que cursaram jornalismo para narrar e comentar jogos e competições. Com esse espaço, o público e os patrocinadores irão aparecer. O que se precisa agora é de igualdade de oportunidades, mas sem cotas, e sim por respeito a competência que elas já possuem.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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