Brasil: diagnóstico de uma seleção

Texto: Marques de Souza

A atitude de alguns torcedores nos últimos meses quanto a seleção brasileira tem incomodado a equipe. Ao mesmo tempo, pela situação em que o time passa, as críticas são de certo modo, justas. Principalmente sendo feitas por um povo acostumado com a glória eterna, vitórias esmagadoras, soberania e futebol arte.

A seleção brasileira vive uma verdadeira “crise de identidade”. Na maioria das vezes, o torcedor não conhece os atletas que estão em campo. Essa transição (de um time com idade avançada para um mais jovem) é necessária, mas precisa ser feita com cuidado. A depressão pós-copa se tornou acentuada e nos convida a refletir sobre o caminho que foi percorrido nos últimos anos e qual a expectativa a curto, médio e longo-prazo.

Para analisar o momento atual da seleção, é necessário se basear em um contexto histórico, de modo que haja uma compreensão que o time brasileiro, sozinho, é responsável por boa parte da crise em que está. Mas que não é o único culpado. Acima disso, qual seria o norte que nos faria sair dessa confusão instalada? Analisamos cinco fatores essenciais no futebol como elenco, tática, estrutura e torcida, e com base nisso, podemos diagnosticar ao menos as principais aflições do time.

GERAÇÃO 16 E A QUESTIONADA “SAFRA”

Seleção reunida antes do jogo contra o Panamá. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)
Seleção reunida antes do jogo contra o Panamá. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Não paramos de produzir bons jogadores. Pelo contrário, a tradição brasileira de formar craques continua firme e forte. Os títulos provam isso. Na categoria Sub-20, o São Paulo foi campeão da Libertadores e o Brasil foi vice-campeão da Copa do Mundo. Na categoria sub-17, veio o título do Sul-americano. Assim como bons resultados, jogadores técnicos continuam aparecendo. Mas diferente do que existia há alguns anos, não são mais o suficiente.

Na verdade, a geração é um dos menores problemas. “Acho que o futebol brasileiro precisa de mais intercâmbio na parte de conhecimento. Trazer mais gente para conversar, levar profissionais para fazer cursos na Europa. A verdade é trabalhar mais. E reformar os campeonatos porque só com os clubes fortes você vai revelar jogadores bons, para depois tentá-lo manter o maior tempo possível no Brasil. Só assim formar uma seleção forte”, acredita Paulo Vinicius Coelho, comentarista do Canal Fox Sports.

Um plano nacional de formação de atletas seria a ideia mais interessante para estimular novos jogadores. E com diferentes estilos. Treinar a intensidade e criatividade é tão importante quanto fazê-lo pensar no jogo, de cabeça levantada.

EVOLUÇÃO TÁTICA

Dunga passa orientações em treino. (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Seleções do mundo inteiro perceberam que os resultados só viriam com dedicação e aplicação tática. Para isso, investiram em tecnologia e profissionais que fizessem os atletas render acima do esperado. Esse alto rendimento é capaz de decidir partidas, tornando equipes compactas no meio de campo, eficazes no ataque e equilibradas na defesa.

Se fala menos em individualidade e mais em grupo, conjunto. Padronizar o estilo de jogo das seleções de base, por exemplo, faria com que o jogador já chegasse no principal com uma noção das prioridades de sua função, assim como facilitaria a adaptação. No entanto, seria necessário um trabalho a longo prazo com uma comissão técnica fixa e que trabalhasse em sintonia, destacando os erros, acertos e deficiências de cada categoria.

A melhor maneira de aprender e evoluir taticamente é com estudo. Tanto técnicos como jogadores precisam perceber as melhores noções de posicionamento, ocupação de espaços e finalização. A CBF precisaria participar diretamente desse processo.

ENTIDADES FORTALECIDAS

Diferente da CBF que se afundou em escândalos e crises administrativas, diversas entidades que coordenam as seleções pelo mundo perceberam que a partir delas poderia ser realizado um bom trabalho. A DFB (Em português: Federação Alemã de Futebol), por exemplo, organizou um projeto inovador em meados de 2004/2005.

O que ela fez? Padronizou o estilo de jogo de todas as seleções do país, desde a base; fortaleceu com dinheiro e qualificação profissional as diversas escolinhas espalhadas pelo país; incentivou a prática do esporte de alto rendimento nas categorias de base e investiu em tecnologia. O resultado veio 10 anos depois. A Alemanha foi campeã da Copa do Mundo de 2014, justamente no Brasil. E com um resultado humilhante: 7×1.

“Ser campeão mundial não é bem a questão. Por vezes, equipes nem tão boas assim conseguem algumas conquistas. O próprio Brasil, apesar de ter um time abaixo das expectativas, num dia atípico da Alemanha poderia ter vencido e depois, empolgado, se sagrado campeão. Há a necessidade urgente de mudança na estrutura do futebol brasileiro, desde a gestão da CBF até a maneira dos clubes cuidarem das categorias de base, que hoje são verdadeiros balcões de negócios para enriquecer dirigentes e empresários”, acusa Paulo Cezar Andrade, especialista em jornalismo investigativo esportivo.

CONFIANÇA GENERALIZADA

As inúmeras mudanças positivas que ocorreram entre as mais diversas seleções de futebol do mundo geraram um fator capaz de decidir jogos: a confiança. A postura de medo e retranca em seleções sem tanta tradição deu lugar a uma postura onde acreditar no resultado é o primeiro passo para a vitória.

É um fenômeno que podemos chamar de “equilíbrio”. Como não há mais uma disparidade tática entre as equipes, o jogo se torna mais igual, favorecendo as equipes de menor tradição e dando-as possibilidades concretas de vitória.

RECUPERAÇÃO DA TORCIDA

Torcida brasileira em jogo da Copa de 2014. (Foto: The Guardian)
Torcida brasileira em jogo da Copa de 2014. (Foto: The Guardian)

Para retomar o caminho da tranquilidade, o Brasil precisa novamente de sua principal força: a torcida. Com os recentes fracassos e futebol apresentado, o torcedor otimista deu lugar ao desconfiado, crítico e inconformado com o momento vivido.

O jornalista Vitor Birner foi pontual em entrevista ao SporTV: “A relação ruim foi criada pela CBF. É muito simples: quando a seleção brasileira foi tri ou tetracampeã do mundo, montava-se uma Seleção porque era necessário mostrar a cultura do futebol brasileiro, fazer um grande time para o mundo poder observar, poder olhar como nós brasileiros jogávamos e pensávamos futebol. Depois, a Seleção passou a ser um objeto de negociação, que por acaso precisava ter um time. Fica muito claro a forma como a CBF conduziu, e aí a gente lembra dos amistosos, que passou a ser um objeto comercial. As pessoas não torcem por produtos, torcem por times de futebol.”

Retomar a confiança da torcida com apresentações convincentes, atletas que demostrem o orgulho em vestir a camisa e uma comissão técnica que corresponda as expectativas é o primeiro passo de uma corrida longa, porém necessária para o retorno dos bons tempos. O marketing poderia entrar em ação com campanhas que levantassem a autoestima e orgulho em ser brasileiro, mas a maior chance de mudança está dentro de campo.

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