NORDESTE: Tradicional e promissor, futebol da região sofre com falta de regularidade e ausência de títulos na elite nacional

Por MARQUES DE SOUZA

Campina Grande – PB

Sensação do início do ano com o título do campeonato pernambucano e da Copa do Nordeste, o Santa Cruz guiado pelo estudioso Milton Mendes chamou atenção pelo estilo de jogo organizado e gols do veterano Grafite. A expectativa então se voltou para o Campeonato Brasileiro da Série A, mas após amargar as últimas colocações, o Santa expôs um problema que já dura décadas. Tradicional e apaixonante, o futebol da região Nordeste do país sofre com a falta de regularidade e ausência de títulos na elite nacional. O gigante Santa Cruz é o exemplo mais atual. Em 2016, por exemplo, largou bem no início do campeonato brasileiro, mas foi se afastando a cada rodada das primeiras posições. Hoje, ocupa a vice-lanterna.

O último título nordestino em um campeonato nacional foi em 2008, quando o Sport venceu o Corinthians pela Copa do Brasil. Mas quando o assunto é campeonato brasileiro, o tabu é ainda maior. A última conquista foi do Bahia, em 1988 quando a competição ainda se chamava Copa União. Na era dos pontos corridos, que começou em 2003, nenhum clube do Nordeste conseguiu levantar a taça. Quando se coloca o histórico da competição, a diferença fica ainda mais acentuada. Desde 1959, quando a primeira competição nacional da história foi criada para indicar um representante brasileiro à Taça Libertadores da América, são 4 títulos nordestinos contra 76 do Sudeste, onde está o monopólio do futebol nacional.

Buscando uma resposta para esse problemática, fomos em busca dos “especialistas do futuro”. Estudantes em formação no Nordeste, apaixonados por futebol e que estão espalhados pelas mais variadas universidades da região, produzindo conhecimento, discutindo soluções para as questões urgentes e unindo ciência e futebol.

DINHEIRO, TELEVISÃO E AMADORISMO

Barradão lotado em jogo do Vitória. Força do futebol nordestino está em sua torcida. (Foto: divulgação)
Barradão lotado em jogo do Vitória. Força do futebol nordestino está em sua torcida. (Foto: divulgação)

Desigual. Essa foi a palavra usada pelo técnico Lisca, em outubro de 2015, quando ainda comandava o Sampaio Corrêa para criticar a diferença da divisão das cotas de TV entre os clubes no Brasil. O pensamento do técnico que, na época, dirigia um time maranhense, pode ser estendido a toda a região, principalmente na atualidade.

Essa desigualdade é apenas um dos fatores externos que dificulta a montagem de bons times, mas a maioria dos problemas está dentro dos próprios clubes. Heider Mota é baiano de Salvador e estudante de Jornalismo da UNIJORGE – Centro Universitário Jorge Amado. Torcedor do Vitória com presença assídua nos jogos, o presidente do portal HTE Sports coloca a responsabilidade do cenário atual em três fatores: finanças, mídia e falta de gestões mais profissionais.

“Acredito que essa questão dos times nordestinos terem dificuldades para conquistar títulos nacionais envolvem alguns fatores: primeiro deles, a questão financeira. As equipes do sul e sudeste tem muito mais orçamento, mais patrocínio e se você for analisar, por exemplo, a Caixa Econômica patrocina o Corinthians e o Vitória, só que o valor pago ao Corinthians é praticamente 20x o que é pago ao Vitória. O mesmo patrocinador paga quantidades diferentes para um time paulista e para um time baiano.

Tem também uma questão midiática. Isso tá mudando agora com o Esporte Interativo, com as mídias locais se fortalecendo, mas você percebe que um nordestino quando chega longe em uma competição nacional sempre é tratado como azarão ou que chegou lá por sorte, nunca por competência.

E o mais importante é a organização. Os times nordestinos não são bem geridos, organizados. Quando um time consegue se acertar chega longe. Foi assim com o Vitória em 2010, o Sport em 2008, os títulos do Bahia. O modelo de gestão implantado nos times nordestinos é precário e os impedem de tentar algo a mais. É preciso mudar a mentalidade como um todo: cotas de TV, mídia, enfim, acho que a organização dos próprios clubes é o que leva a um caminho de menos oportunidades. ”

VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS

Machete de jornal que relata o título do Bahia em 1959.
Machete de jornal que relata o título do Bahia em 1959.

A miscigenação brasileira parece estar presente até na organização dos campeonatos nacionais. Para chegar nos moldes que vemos hoje, foram realizadas diversas fórmulas de diferentes nomes. Mas o campeão da primeira competição nacional da história, ainda no final da década de 50, é nordestino. Foi o Bahia, após vencer o terceiro jogo da final contra o Santos.

Nas edições atuais se tornou raro ver times do Nordeste como protagonistas. Pablo da Matta é estudante de História da UFCG – Universidade Federal de Campina Grande, que fica à 130km da capital João Pessoa. Pernambucano de nascimento e torcedor do Santa Cruz, o historiador em formação não simpatiza com o Clube dos 13 e isenta o fator histórico do mal momento em que vivemos.

“Na verdade, essa dificuldade dos times do Nordeste em conseguir títulos nacionais ficou mais evidente agora. O Bahia já foi campeão brasileiro, o Sport também foi, o Paysandu já foi. Os caras tiveram momentos de glória. O que prejudicou o futebol nordestino foi essa questão de clube dos 13 (Nome da entidade que defende os interesses políticos e comerciais dos 20 supostos principais clubes de futebol do Brasil, negocia os direitos de transmissão com as emissoras de rádio e TV e dialoga com a CBF acerca da disputa dos campeonatos). A Copa União era bem mista, tinha times do Nordeste, Norte. O próprio Santa Cruz já foi terceiro colocado. O Náutico já foi vice, foi pra libertadores. A questão é mais econômica e política do que geográfica. ”

PSICOLÓGICO ABALADO

Atleta do Fortaleza, em jogo de 2014, lamenta permanência na 3ª divisão. (Foto: Natinho Rodrigues / Agência Diário)
Waldison, em jogo de 2014, lamenta permanência na 3ª divisão. (Foto: Natinho Rodrigues/Agência Diário)

Em outubro de 2014, após o empate por 1×1 com o Macaé que rendeu a permanência na Série C, um atacante do Fortaleza destacou que além da pressão, a condição psicológica do elenco tricolor estava atrapalhando o desempenho do plantel: “A parte psicológica não está legal”. Apesar dos altos salários, a pressão da torcida, distância da família, carreira curta, lesões e diversos outros problemas comuns na vida de um atleta, prejudicam a execução do alto rendimento.

Para Pedro Lucas, psicólogo cearense em formação na UNIFOR – Universidade de Fortaleza, ainda há uma grande barreira entre psicologia e futebol, que acaba atrapalhando, em inúmeras situações, o desempenho do profissional. Torcedor do Fortaleza, que há 7 anos amarga a Série C do campeonato nacional, o jovem acadêmico vislumbra a psicologia cada vez mais presente em nosso principal esporte.

“A questão é que alguns desses times, como não tem um investimento tão alto, não traz jogadores com renome. Geralmente a fonte desses ganhos é da base. Nisso, são poucos os clubes que tem psicólogos para o esporte. A gente pode ver, por exemplo, o caso da Seleção Brasileira, que durante a Copa do Mundo no Brasil não tinha um psicólogo. Dando suporte para os jogadores, fazendo ele potencializar suas qualidades, podendo ser o apoio psicológico ou no biofeedback (retorno imediato da informação através de aparelhos sensórios eletrônicos), que faz um estudo do neurológico do jogador e do corpo dele, fazendo que ele se descubra e saiba o que pode fazer pra render mais. ”

A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO

Diá foi campeão da copa do Nordeste em 2013 e venceu o estadual em 2016.(Foto: Junot Lecet Filho/Jornal da Paraíba)
Diá foi campeão da Copa do NE em 2013 e paraibano em 2016. (Foto: Junot Lecet Filho/Jornal da Paraíba)

Um técnico no Brasil demora em média 6 meses no cargo. Dados que preocupam. Na maioria dos casos, a demissão prejudica o time durante toda a sequência da temporada. No Nordeste, isso é ainda mais acentuado. Em 2016, por exemplo, dos dois times finalistas da Copa do Nordeste, o Campinense (vice-campeão) já demitiu seu treinador Francisco Diá, e Milton Mendes, campeão pelo Santa Cruz, balança no cargo. Dos 9 técnicos campeões estaduais, 6 continuam no cargo (Marquinhos Santos, CE; Milton Mendes, PE; Geninho, RN; Mazola Júnior, AL; Vagner Mancini, BH; Ruy Scarpino, MA) e 3 já foram demitidos (Francisco Diá, PB; Roberval Davino, SE; Capitão, PI)

Trabalho a longo prazo. Esse seria o pedido do estudante de administração Ian Freire para os clubes do Nordeste. Em formação na UNIFOR – Universidade de Fortaleza, o cearense acredita que a paixão, já característica dos torcedores da região, pode influenciar na tomada de decisões precipitadas.

“Acredito que o futebol nordestino, por ser o mais apaixonado do Brasil, sofre com a má administração por pensar, na maioria dos casos, no resultado a curto prazo. Todos sabemos que um trabalho bem feito leva um certo período e, acredito que os clubes da região se adaptando a esse modelo administrativo vão sim, obter resultados satisfatórios quase iguais aos clubes de ponta do nosso futebol nacional. ”

ORGULHO PARTICULAR

Em meio as adversidades, o futebol do Nordeste cresce e confirma a cada partida sua tradição e vocação para fazer história. Quando a bola rola, some toda a preocupação com histórico e conquistas. No fundo, toda reclamação quanto a isso é ilusória. O nordestino não vive de títulos, ele vive somente do seu clube e do momento de fuga da realidade que só esse esporte proporciona. Se Euclides da Cunha tivesse sido cronista esportivo, certamente diria que “O torcedor sertanejo é, antes de resultados e títulos, um forte!” E ninguém ousaria duvidar.

 

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