Sheila reclamou, e com razão. O esporte ainda é machista

Final do Grand Prix de voleibol e a seleção brasileira sagra-se, pela 11ª vez, campeã do principal torneio anual de seleções. Nathália, MVP do torneio, Thaísa na seleção ideal junto com Sheila. Só alegria? Para as meninas de ouro dessa seleção não é bem assim. Os valores da premiação revelam uma verdade que sempre é jogada para baixo do tapete. O esporte, como um todo, ainda é machista.

Não digo machista no sentido superficial, daqueles que somente debatem se o homem somente vê a beleza física na mulher. Coloco que é machista pela falta de repercussão, apoio, divulgação e reconhecimento das mulheres no esporte em geral. O prêmio, reclamado por Sheila, é apenas a consequência de uma série de fatores anteriores. Vamos pensar o seguinte: A premiação dada a seleção campeã do Grand Prix é cinco vezes menor que para a seleção campeã da Liga Mundial, versão masculina do mesmo torneio (1 milhão de dólares para os homens e 200 mil dólares para as mulheres). Isso não ocorre simplesmente por que os organizadores acham as mulheres valem menos que homens. Acreditar nisso é simplificar uma questão que é bem mais ampla. O pagamento é diferenciado porque a arrecadação de patrocinadores para as duas competições é diferenciada. Aí que entra a culpa de todos e a reflexão que quero propor nas próximas linhas.

Nesse contexto, vamos lembrar como o evento foi tratado pela mídia. E, quando digo mídia, vamos focar na emissora que detém os direitos de transmissão da competição. Não vou nomeá-la pelo mesmo motivo que ela não fala os nomes dos estádios que têm contrato de Naming Rigths com empresas, que não fala os nomes de patrocinadores que dão vida as equipes de vôlei, basquete e outros esportes nacionais. Mas claro que você, amigo leitor sabe do que estou falando. Pois bem, na grande final, contra os EUA, a transmissão ficou restrita ao canal a cabo número 2 do seu grupo. Tudo porque no canal aberto transmitiram uma etapa da fórmula 1. Ora, colocar o evento somente na TV por assinatura e no canal secundário diminui sensivelmente a visibilidade do público e, claro, interesse dos patrocinadores.  Sem visibilidade, as empresas não compram publicidade para o evento e, logo, esse dinheiro não chega para premiação das seleções. Vejam como será a transmissão das finais da Liga Mundial para entender a diferença. Duvido que, com a seleção brasileira chegando a final, não haverá transmissão em TV aberta.

Esse tratamento diferenciado que a mídia concede aos esportes masculinos e femininos cria uma bola de neve. O público fica sem conhecer o esporte. Sem conhecer, não debate, não se apaixona, não torce, não vibra. Basicamente acabamos lembrando-se da existência de esportes femininos somente na época de grandes competições, como as Olimpíadas. Reparem nos grandes portais esportivos, brasileiros e internacionais. Todos eles têm links para outras modalidades, mas as ligas apresentadas são sempre as masculinas. Procure sobre WNBA (liga norte-americana de basquete), superliga feminina de vôlei, campeonato mundial de vôlei e verá o que estou querendo dizer. Aqui mesmo no HTE Sports.

Sheila tem razão. O esporte é machista. Ainda não aprendemos a reconhecer o mérito das mulheres, que são muitos. Ainda não valorizamos. Precisamos debater mais o futebol, vôlei, basquete, handebol e qualquer outra modalidade feminina. Mas não debater somente a questão de como podemos inseri-las na mídia. Debater como debatemos as mesmas modalidades no masculino, discutindo as contratações das equipes, análises táticas e técnicas. Precisamos nos interessar mais e nos aprofundarmos nas análises. Precisamos tratar o esporte feminino em igualdade com o masculino. Somente assim, o público atrairá patrocinadores que, se não igualar, certamente minimizará a diferença apontada pela oposta da seleção brasileira. A campeã feminina não pode ganhar menos que o terceiro colocado do masculino. Mas a culpa não é só da organização. Nós, torcedores e mídia, também temos nossa responsabilidade na situação atual.

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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