HTE Ciência: Por que a superstição ainda é presente nos esportes?

Questões psicológicas são muito presentes no esporte hoje em dia. Seja de forma profissional ou pelo senso comum, é fato verídico e notório que a Psicologia ganhou certo destaque no percorrer dos últimos anos. Tais questões podem ser explicadas pela Psicologia, e nesse texto será explicado (da melhor forma possível) o porque que o comportamento supersticioso ser tão regular entre atletas (podendo ser projetado para os não-atletas também)

Superstição, no dicionário: “é a crença sobre relações de causa e efeito que não se adéquam à lógica formal, ou seja, são contrárias à racionalidade”. O que é uma bela definição, visto o que será exposto aqui.

Na Psicologia, existem diversas abordagens. A mais famosa é a Psicanálise, a que todos popularmente associam à Freud. A Psicanálise é mentalista, ou seja, foca em processos mentais para basear-se e resolver, muitas vezes, questões humanas. Há, porém, uma abordagem pouco mais científica: o Behaviorismo. No mentalismo é impensável provar os mecanismos mentais à luz da ciência, considerando que, hoje, não se tem uma forma de comprová-los epistemologicamente (como a ciência pede; e por isso a Psicologia ainda não é unanimante considerada uma ciência). Já no Behaviorismo, é um pouco diferente, porque seus conceitos podem ser comprovados de forma científica. O comportamentalismo estuda o comportamento, e busca de forma concreta do porque daquele comportamento ser frequente, ou o porque não pode ser mais observado, explicando à grosso modo. E, sem nenhuma questão de juízo em relação à psicanálise, nesse texto será utilizada a abordagem behaviorista.

Dada a devida introdução, ao assunto. O que contigua um comportamento supersticioso? Existe uma relação de dependência entre as coisas. Exemplificando: se um atleta trabalha, ele recebe dinheiro. Pois bem. Mas e se, por exemplo, esse mesmo atleta faz um ritual antes de uma partida importante, que seu time precisa vencer, e acaba ganhando? Nesse caso, acaba-se criando uma “regra”. O ser humano é suficientemente inteligente para questionar o “por que” daquele evento anterior (realizar qualquer tipo de ritual) ter sido sucedido por algum que lhe causa satisfação (ter vencido o jogo) e, assim, o indivíduo  pode fazer a associação: “sempre que eu realizar o ritual, o meu time vai vencer”. Como não há relação de dependência entre uma coisa ou outra, o tal comportamento é chamado de supersticioso (não é garantia de que se fizer o ritual, ganhará o jogo). O humano tem certa tendência em enfatizar acontecimentos bons e dar menos importância aos ruins, o que também fortifica o comportamento supersticioso. O que ilustra muito bem isso é uma confissão de John Terry: “Eu e o Frank [Lampard] começamos a fazer isso há muito tempo. No vestiário do Chelsea temos três mictórios e eu e o Lampard começamos a urinar em um deles. Vencemos a partida e para mim esse foi o motivo. Na semana seguinte havia uma fila composta por mim, Frank e Ashley Cole. Na outra semana havia quatro e na seguinte cinco. Até hoje César Azpilicueta e Cesc Fàbregas estão lá em uma grande fila”

A superstição é presente desde torcedores até atletas de alto nível. Rafael Nadal sempre faz uma série de movimentos em seu rosto e ajeita os ombros da sua camisa antes dos saques, mesmo quando está perdendo. Tal ritual pode, hipoteticamente, fazê-lo sentir-se melhor quando está em uma situação adversa, acreditando ele, assim, também de forma hipotética, que poderá vencer o jogo se fizer tal ritual – o que, para ele, pode já ter se tornado uma relação de dependência entre fazer os movimentos citados e conquistar um ponto, já que seu comportamento supersticioso manteve ou aumentou a frequência, que, para a abordagem behaviorista, significa que isso é reforçador (do comportamento) para ele. Há outros exemplos, como o de Cesar Cielo, que estapeia o peito antes de nadar. O comportamento supersticioso também pode funcionar como uma esquiva daquilo que é desconhecido.

Aqui, ainda poderia ser inserido a questão de sorte ou azar, mas o que seria muito subjetivo desse que vos escreve, e nada científico. Porém, muito bom lembrar que a questão sorte-azar está, também, ligada à superstição.

Apenas citando referências para o embasamento deste (não necessariamente nas normas da ABNT): Cruz, R. N. e Cillo, E. N. P. (2008); Santos, G. M. e Micheletto, N. (2010); Souza (2001); Todorov, J. C. (1989)

Thiago Cunha Martins

Paulistano, alvinegro, co-fundador e Diretor-geral do HTE Sports. Jornalismo por paixão, Psicologia por vocação. Adorador do futebol e tudo o que o rodeia. Fã curioso da NFL, UFC e eventual seguidor de outros esportes

%d blogueiros gostam disto: