Rio 2016 – O fiasco olímpico do basquete brasileiro

Texto: Péricles Lima

Dez jogos disputados, apenas duas vitórias, e duas eliminações na fase de grupos. Este foi o retrospecto das seleções brasileiras de basquete, masculina e feminina, na Olimpíada do Rio de Janeiro. A seleção feminina teve cinco derrotas em cinco jogos, a pior campanha da equipe em sete participações nos Jogos. No masculino, apenas duas vitórias e três derrotas traumáticas, que impediram a modalidade de reassumir um protagonismo no cenário esportivo brasileiro.

O Brasil tem tradição no basquete olímpico. A fantástica geração de Paula, Hortência e Janeth foi medalha de prata em Atlanta 1996, bronze em Sidney 2000 e 4º lugar Atenas 2004. Mas os resultados desde então estão muito abaixo: nas últimas 17 partidas disputadas pela seleção feminina em Jogos Olímpicos, são 15 derrotas. A seleção masculina tem três medalhas de bronze (1948,1960,1964), e Oscar Schmidt como o maior pontuador das história das Olimpíadas. Contudo, a equipe ficou três edições consecutivas sem sequer se classificar para o torneio, após a aposentadoria do “Mão Santa” em 1996, retornando somente nos jogos de Londres 2012.

Os resultados do nosso basquete na Rio 2016 foram decepcionantes, mas longe de serem surpresa. A equipe feminina sofre com a renovação das atletas e levou um elenco com uma alta média de idade, sendo que a armadora Adrianinha disputou a sua 5ª Olimpíada. Há menos de um ano para o início dos Jogos houve um racha entre a Confederação Brasileira de Basquete e os clubes da Liga de Basquete Feminino (LBF), o que comprometeu a preparação da equipe, resultando em poucos amistosos para uma competição de alto nível. A própria LBF conta apenas com seis equipes, dificultando a formação de atletas, a manutenção de profissionais no País e a busca por recursos.

A seleção masculina sabia que teria uma tarefa dura na Olimpíada em casa. Com a exceção óbvia dos EUA, o basquete de seleções é equilibrado em um alto nível, e a diferença entre o 2º e o 9º colocados é decidida em detalhes. E foi nos detalhes que o Brasil se perdeu: os primeiros 20 minutos bizarros na estreia contra a Lituânia, a liberdade incrível dada ao croata Bogdanovic, a falta de frieza para fechar o jogo contra a Argentina. Uma seleção que teve bons momentos, mas mereceu a eliminação.

Há muito o que se questionar dos atletas e das comissões técnicas, mas não são eles que possuem os meios para mudar o cenário atual do basquete brasileiro. É preciso cobrar das gestões da Confederação Brasileira de Basquete, que recebeu mais de R$ 70 milhões para o último ciclo olímpico. Os dirigentes precisam investir esse dinheiro na formação de jovens jogadoras e jogadores, dialogar com os clubes para estabelecer campeonatos nacionais competitivos, que atraiam o interesse do público e de patrocinadores. A parceria do Novo Basquete Brasil com a NBA é um começo, e pode inspirar outras ações importantes.

Na monocultura esportiva brasileira, com todos os olhos voltados para o futebol, sempre houve a discussão sobre o “segundo esporte nacional”. O basquete já ocupou este posto, mas parou no tempo e viu o vôlei tomar seu lugar. São 6 ouros olímpicos na quadra e na praia desde 1992; jogos de seleções e de clubes, masculinos e femininos, transmitidos na TV aberta; horário nobre para a modalidade na Rio 2016. Até o Handebol vem numa crescente de popularidade, com as seleções conseguindo seus melhores resultados em mundiais e Olimpíadas nos últimos quatro anos.

O basquete brasileiro, numa Olimpíada em casa, perdeu a chance de resgatar a simpatia de grande parte dos brasileiros, de despertar o interesse de sua prática em crianças e adolescentes, de reafirmar sua importância para o esporte nacional. O próximo ciclo olímpico será mais difícil, mas cabe ao público, à imprensa, ao Ministério do Esporte e aos atletas cobrarem, se posicionarem contra as más gestões recorrentes. Não só a CBF é corrupta, há um descaso nas confederações esportivas brasileiras, e no próprio Comitê Olímpico. Se estamos aprendendo com uma Olimpíada em casa o poder do esporte de transformar lugares, valores, vidas; precisamos aprender também a cobrar pelas melhores condições para sua prática no nosso País. Todo esporte merece uma chance, e o basquete também.

Crédito da imagem destacada: Mark Ralston/AFP

Texto publicado originalmente em https://diarioesportivovca.wordpress.com/

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