Escandinávia: além de Game of Thrones, o futebol

Texto: Moisés Costa

O futebol é repleto de histórias surpreendentes, times inesquecíveis e conquistas inacreditáveis. A maior surpresa do ano com certeza foi a campanha da Islândia durante a Eurocopa. A seleção, que disputou jogando por jogar, beliscou uma vaga nas oitavas com um segundo lugar no Grupo F – deixando Portugal para trás -, encantou o mundo com a torcida apaixonada e, não satisfeita, eliminou a Inglaterra nas oitavas de final. A campanha levou os olhos do mundo para olhar o futebol gelado da Escandinávia.

Primeiro, vamos a aula de geografia. Escandinávia. Uma região geográfica que abrange Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Islândia, inclusive seus territórios associados (Groenlândia, ilhas Feroé e Alanda). O que você pensou? Game of Thrones? Frio? Aurora Boreal? Pois é, mas, pasmem. O futebol é extremamente tradicional na região e os torcedores são apaixonadíssimos. Digamos que o futebol é um fenômeno migratório. Todos os anos, milhares de jogadores abandonam os seus países em busca de um sonho, de algo melhor, de melhores condições de trabalho ou simplesmente na busca de um espaço onde possam fazer aquilo que mais gostam: jogar futebol. Graças a isso, a Escandinávia, em um contexto geral, se tornou acesso para o futebol europeu, o que atrai jogadores de 15 países diferentes a atuarem pelos países citados, são eles: Brasil, EUA, Nigéria, Gana, Senegal, Gâmbia, Serra Leoa, Canadá, Costa Rica, Zâmbia, Jamaica, Costa do Marfim, Argentina, Camarões e África do Sul.

Com a chegada de jogadores de outros países, a mistura de culturas com a mesma paixão pelo esporte, fez com que o futebol evoluísse, se tornando vitrine para o futebol europeu, principalmente com algumas campanhas históricas ao longo dos anos. Até há duas décadas atrás, vigorava o estereótipo de que os jogadores escandinavos eram altos, toscos e louros numa alusão ao seu porte físico e à sua pouca técnica individual. No entanto, a conquista da Eurocopa de 92 por parte da Dinamarca, assim como a prestação da Suécia no Mundial de 94 começaram a mudar essa perspectiva. Hoje em dia, os clubes escandinavos encontram-se numa segunda linha do futebol europeu, sendo que não se espera repetir presenças em finais europeias tal como conseguiram o IFK Gotteborg e o Malmo (ambos clubes suecos). No entanto, os clubes escandinavos continuam a formar talentos (como por exemplo Zlatan Ibrahimovic, formado nas escolas do Malmo e recrutado pelo Ajax) e, principalmente, a servirem de porta de entrada de muitos jogadores asiáticos, africanos e americanos para o futebol europeu.

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Vamos usar a Islândia como base em todas as informações. Segundo dados do Governo islandês, o país de aproximadamente 330 mil habitantes tem 33 mil pessoas que praticam regularmente o futebol. Destes, 23 mil estão registrados em clubes que fazem parte da KSI: são 15 mil homens e 8 mil mulheres. O mais impressionante: dos 15 mil homens, são só 3 mil adultos (acima de 18 anos), e destes, só 100 são registrados como jogadores 100% profissionais – ou seja, que exercem apenas a atividade de atleta, sem ter um segundo emprego para completar a renda. Logo, a Islândia, com seus 330 mil habitantes, tem só 100 boleiros profissionais registrados no próprio país. Algo ínfimo perto dos números do Brasil, por exemplo.

No último levantamento feito pela CBF, publicado em fevereiro deste ano, foram encontrados 28.203 jogadores sob contrato. Ou seja, 282 vezes mais que na pequena ilha, que é o 10º menor país da Europa, com 103 mil km², e a menor nação em todos os tempos a disputar a competição continental.

Dos atletas que disputaram a Euro, no entanto, nenhum atua no futebol local. Sete jogam na Suécia, três na Noruega, dois na Dinamarca, dois na Itália, dois na Alemanha, dois em Gales, um na Inglaterra, um na Rússia, um na Suíça, um na França e um na Bélgica. Ao todo, a Islândia tem 75 jogadores registrados em 14 ligas diferentes da Europa.

O futebol tem lugar e oportunidade para todos. Não para os grandes palcos nem para as grandes decisões, mas tem o seu lugar. Todos aqueles que tentam a sua sorte através da Escandinávia mostram isso mesmo: que não importa como começa, mas importa como acaba. Por isso o amor pelo futebol local torna tudo isso muito especial e esse sentimento nos retribui com imagens como essa.

islandia

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