The Rivals #06 – Por trás de um grande herói, há sempre um grande vilão

Para o nascimento de um grande herói é necessário um grande vilão. Essa frase já foi utilizada em histórias em quadrinhos de super-heróis, filmes de ação, e serve muito bem para a rivalidade que se criou nos anos 1990 no vôlei feminino, entre as seleções de Brasil e Cuba.

Entre o final da década de 1980 e começo da década de 1990, o voleibol feminino das Américas era dominado por Cuba e Peru. Enquanto isso, o esporte começava a crescer no Brasil, principalmente pelos ótimos resultados da seleção masculina, com a prata nos Jogos de 1984. No feminino, quando o Brasil enfrentava Cuba, o clima entre as jogadoras das duas seleções era de amizade, com as brasileiras auxiliando compras das cubanas nas viagens, por exemplo. Tudo passou a mudar quando Bernardinho assumiu a seleção feminina no ciclo olímpico dos jogos de Atlanta, que ocorreriam em 1996. Certo que para o crescimento da competitividade da seleção feminina precisava ter um grande rival para aprender a ganhar grandes jogos, coube a seleção cubana o papel de vilã.

A amizade das jogadoras aos poucos foi acabando e as brasileiras, que antes somente perdiam sem muita resistência das cubanas começaram a fazer jogos duros com a geração que teve, entre outras, as excepcionais Ana Moser, Ana Paula, Fernanda Venturini, Virna e Márcia Fú como seus grandes expoentes. Para os Jogos Olímpicos de 1996, depois de confrontos duros contra Cuba em Pan Americanos e Grand Prix, a missão do Brasil era vencer Cuba para seguir na busca de uma sonhada medalha olímpica no esporte. E quis o destino que Cuba e Brasil se encontrassem logo na primeira fase do torneio olímpico. E o Brasil foi primoroso nesse jogo. Com ótimo saque e boa defesa, aplicou um impecável 3 sets a 0 nas cubanas. A primeira parte da missão estava cumprida, pois a intenção era vencer Cuba já na primeira fase e deixar um eventual segundo jogo somente nas finais.

Mas Cuba perdeu mais jogos também na primeira fase e caiu no mesmo chaveamento do Brasil nas fases eliminatórias. E o confronto que se repetiu nas semi-finais tornou-se talvez o mais emblemático da história dessa rivalidade. Já cientes que as brasileiras era páreo duro, as cubanas fizeram do voleibol o que hoje conhecemos como “clima de Libertadores”. A cada ponto, a cada toque na rede, a cada descida minimamente controversa, Regla Torres, Mirea e demais jogadores símbolos dessa seleção gritavam e provocavam as brasileiras. As comemorações do vôlei que quase sempre são aquelas rodinhas dos atletas tornaram-se vibração na rede encarando as adversárias. Talvez ainda por inexperiência, por falta de preparo, as brasileiras caíam na pilha das cubanas e começavam a cometer alguns erros que não eram normais daquela seleção. Resultado: Uma derrota por 3 sets a 2 dolorida, e com as cubanas e brasileiras brigando na rede ao final do jogo, entre gritarias de um lado, provocações e pedidos de respeito de outro.

Dali em diante, nenhum jogo entre Brasil e Cuba, seja em que competição fosse, seria um jogo qualquer. Cuba tornaria-se para o principal vilão do vôlei feminino brasileiro e os jogos eram cheios de provocações de parte a parte. Cuba ainda dominaria o cenário do vôlei feminino até os Jogos Olímpicos de Sidney, com a conquista do tri-campeonato. Mas o cenário econômico e político do país atingiria nos anos posteriores todos os esportes da ilha que chegou a ser uma referência pan-americana. O Brasil ainda teria a doída derrota para Rússia nos Jogos Olímpicos de Atenas antes da conquista da primeira medalha de ouro nas quadras em Pequim, tornando-se definitivamente uma das principais forças do voleibol mundial.

Essa rivalidade Cuba foi importante nesse processo de amadurecimento do voleibol nacional. Tendo um adversário qualificado nas Américas, com encontros frequentes em competições como Pan Americano, Grand Prix, Pré-Olímpico e demais campeonatos. Para um herói crescer, um rival forte é necessário. Cuba teve esse papel. O sucesso atual do vôlei feminino passa muito pela forte rivalidade criada nesse período. Uma das maiores já vistas na modalidade!

Marcelo Tadeu Parpinelli

Um cara que gosta de opinar sobre tudo, principalmente daquilo que não conhece e não entende. Aspirante a filósofo nas horas vagas.

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